Modern Warfare - O que está em jogo é a sua opinião


A palavra é poder e o conhecimento é o insumo básico nos tempos atuais. As guerras, conflitos ou batalhas do futuro certamente envolverão, entre muitos outros, assuntos repletos de um novo aparato léxico para descrever as armas que atuarão nesta etapa. Fatores psicológicos, jurídicos, econômicos e tecnológicos conduzirão as Guerras Contemporâneas, um conceito introduzido em 

2009 cujo interesse é minar as forças intelectuais, jurídicas e de mercado através de técnicas como a retórica e a manipulação neurológica.

Se você assim como eu viveu o século XX (geração X / Y), pôde perceber como o mundo mudou abruptamente. Talvez não haja ninguém que tenha vivido mais mudanças do que nós e as causas são inumeráveis. Na década de 90 o dicionário léxico, por exemplo, foi incrivelmente ampliado. Palavras como: Clonagem, Microsoft, Linux, Internet, Web, Euro, Hackers, Kosovo, Bosnia, Tocantins, Tchecoslováquia/República Tcheca e muitas outras incrementaram o vocabulário popular.

Novas palavras são concebidas para expressar idéias e carregam em sua semântica um significado que combinadas transportam conhecimento. Platão disse que o conhecimento consiste num conjunto de crenças verdadeiras, que foram provadas e justificadas. Ou seja, o que o ser humano absorve de alguma maneira através de informações que lhe são apresentadas para um determinado fim ou objetivo. Existem dois tipos de conhecimentos: Tácito, adquire-se ao longo da vida pela experiência e é difícil de ser explicado. "Tácito" vem do latim "tacitus" que significa "não expresso por palavras"; Explícito - formal, claro, regrado, fácil de ser comunicado (palavras, desenhos, diagramas, arquivos). "Explícito" vem do latim "explicitus", que significa "formal, declarado".

O conhecimento é o insumo básico nos tempos atuais, mais ainda o será no futuro. Vivemos a "Era da Inovação" e as guerras, conflitos ou batalhas (como preferir chamar) do futuro certamente envolverão, entre muitos outros, assuntos como "eficiência energética", "tele presença", "impressão 3D", "análise de dados", "proteção cibernética", "drones", ou seja, mais um novo aparato de lexemas utilizados para descrever os novos chips, novos dispositivos de realidade virtual, sistemas de informação e comunicação que serão pares ou mesmo substitutos de equipamentos e armamentos. Algumas pessoas e soldados poderão ser substituídos por robôs e muitas outras coisas.

Tendo isto em vista, estar preparado para o futuro significa indispensavelmente dominar o conhecimento para conquistar as mentes. No cenário brasileiro, inúmeros fatores contribuem para a adversidade: pouco desenvolvimento tecnológico, distribuição de renda, sistema tributário, burocracia, ignorância, legislação arcaica, Justiça lenta, crise de moral e ética, identidade nacional aviltada, infra-estrutura, violência, desrespeito à natureza, criminalidade. Todos estes fatores contribuem para a desordem e desunião da sociedade, fragmentando-a em pequenas células tornando-as fracas e transponíveis.

Mesmo assim nossa sociedade deseja tempos de paz. Mas os conflitos não só integram como constroem a história humana. Um estudo da evolução das guerras, apresentado pela Escola Superior de Guerra em seus Cadernos e Estudos Estratégicos classifica os conflitos em cinco gerações:

1) Batalhas Frontais: Choque/Confronto Direto;

2) Batalhas em Desalinhamento: Fogo Concentrado e Defesa em Trincheiras;

3) Predomínio da Manobra: Fogo e Movimento;

4) Guerras Assimétricas ou Informáticas: Desigualdade entre os Contendores, Grandes Diferenças de Efetivos, Conflitos de Meios Tecnológicos, Logísticos e de Informação/Desinformação.

5) Guerras Contemporâneas: O quadro mais amplo deste conflito inclui fatores Psicológicos, Jurídicos e Econômicos. Este conceito foi introduzido em 2009 e aqui o interesse está em demolir as forças intelectuais, jurídicas e de mercado, através de técnicas como a retórica e a manipulação neurológica, por exemplo.

Nas últimas décadas do século XX eclodiu no quarto nível a Guerra Fria entre os blocos que fazem divisa no Estreito de Bering, descortinando a utilização em larga escala de elementos não militares como a Propaganda e a Desinformação, que tiveram efeitos colaterais em todo o mundo objetivando o espaço nas mídias e a conquista da opinião das massas.

Michael Mann (1942) em seu livro The Sources of Social Power, distinguiu quatro fontes de poder nas sociedades humanas - ideológica, econômica, militar e política - "As fontes do poder social" traçam inter-relações ao longo da história humana, oferece explicações sobre o surgimento do estado e estratificação social.

Hoje, é possível ver e ouvir em qualquer jornal o termo "Guerra Comercial" e a economia globalizada permite que nações consigam causar danos graves nas economias de outros países sem tomar qualquer ação ofensiva, por isto, este termo é muito mais amplo.

Ele diz respeito à coerção econômica, benefícios políticos transacionais e instrumentos letais e não letais para sustentação de campanha, espionagem econômica, roubo de propriedade intelectual, operações cibernéticas e espionagem acadêmica além de domínios não tradicionais (intelligence, information, influence, cyber, and space — I3CS).

Caro leitor, analise os fatos contemporâneos sem emoção, pondere e encontrará vestígios claros do “Lawfare” que é a ação política através de organizações transnacionais ou não-governamentais que podem efetuar uma mudança política que seria impossível de outra forma. Devido à natureza internacional do mundo moderno e ativismo por meio de grupos/redes sociais, é muito mais fácil para os Estados-nação influenciarem as políticas de outros Estados-nação através de proxies (utilização de terceiros).

Para que estas estratégias tenham sucesso é evidente o papel das redes sociais na conquista dos corações e mentes, por meio de armas neoconcepcionais, como apresentam os Coronéis Qiao Liang e Xiangsui (1999), as operações psicológicas têm sido realizadas em diversos conflitos durante anos e encontram amplo campo de atuação na busca por influenciar lideranças, formar a opinião pública, a coesão de alianças, o moral e a disciplina, entre outros. Estas operações foram classificadas pelo Exército Brasileiro como: "atividades que envolvem o conjunto de ações de qualquer natureza, destinadas a influir nas emoções, nas atitudes e nas opiniões de um grupo social, com a finalidade de obter comportamentos predeterminados", estas ações compreendem "um conjunto de atividades psicológicas planejadas com vista a obter o apoio da opinião pública, enfraquecer a vontade de lutar do adversário e contrapor-se à propaganda adversa". (BRASIL, 1998)

Os conflitos submeteram-se às mudanças tecnológicas e econômicas e desencadearão valendo-se de formas atípicas. Novas formas de buscar-se alcançar objetivos políticos e estratégicos são constantemente testadas, com finalidades diversas. O mundo vive hoje uma redução da violência militar, mas, por outro lado, um aumento significativo na violência política, econômica e tecnológica.

 

Referências:

KOCH, Stéphane. 'Modern' Warfare - The Battle for public opinion. Défense Nationale, Paris, 2006.

LIANG, Qiao; XIANGSUI, Wang. Guerra além dos limites: Conjecturas sobre a guerra e a tática na era da globalização. Pequin: PLA LITERATURE AND ARTS PUBLISHING HOUSE, 1999. 55p.

QUINTELA, Roberto Medeiros. Das operações psicológicas à guerra do ciberespaço a importância de conquistar corações e mentes. Escola de Guerra Naval, Rio de Janeiro, 2008

BRASIL. Ministério da Defesa. Estado-Maior do Exército. Manual de Campanha: Operações Psicológicas. 3.ed. Brasília, 1998.

CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede. Tradução de Roneide Venâncio Majer. São Paulo: Ed. Paz e Terra, 2005. 698p.


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