Os disquinhos de João de Barro


Você lembra, não lembra?

João de Barro, o Braguinha, emocionou a minha geração ao nos presentear com a Coleção Disquinho, lançada em 1960 e continua alegrando as crianças. Disquinhos de vinil super coloridos, com estorinhas baseadas em contos de fadas, fábulas, cultura popular, cantigas de roda , festas típicas e muita música. A meninada se deixava seduzir, especialmente com o tom colorido dos tais disquinhos: verde, amarelo, roxo, azul, vermelho, rosa... inesquecível! As músicas eram compostas ou adaptadas por ele, e os personagens interpretados nas vozes melodiosas de atores e atrizes da era do rádio e do Teatro Disquinho.

Eram cantigas de roda e adaptações: A bela adormecida, A gata borralheira, Alice no país das maravilhas, Chapeuzinho vermelho, Gato de botas, Patinho feio, O macaco e a velha, Pedro e o lobo, Três porquinhos... Foram mais de setenta e 50 deles foram lançados em CD. (Relação completa no site https://indicetj.com/disquinho/).fEm 1939, João de Barro havia produzido o primeiro disco destinado ao público infantil: “Branca de Neve e os Sete Anões”. Dalva de Oliveira fazia a voz da heroína, Carlos Galhardo a do príncipe.

Popularizado com o nome de um pássaro, Carlos Alberto Ferreira Braga, o Braguinha, nasceu no Rio de Janeiro em 1907 e ali faleceu em 2006. “Carinhoso” era uma composição apenas instrumental, feita pelo Mestre Pixinguinha em 1917. Vinte anos depois João de Barro escreveu os versos que todos sabemos cantar: “meu coração, não sei porque, bate feliz quando te vê...”

Alguns de seus parceiros: A saudade mata a gente (Antônio Almeida),  Pastorinhas (Noel Rosa),  Cantores do rádio (Lamartine Babo e Alberto Ribeiro); Copacabana, Balancê, Linda borboleta, (todas com Alberto Ribeiro). Em 1953, aproveitou uma chance de ouro: autorizado por Charles Chaplin, Braguinha criou uma letra para a música do filme Limelight, do ano anterior, que o eterno Carlitos fizera apenas instrumental, e ganhamos um novo clássico: “Luzes da Ribalta”.

No Concurso de marchinhas para o carnaval de 1938 a vencedora foi “Touradas em Madri”, composta em parceria com Alberto Ribeiro, mas os concorrentes alegaram que se tratava de “pasodoble”, um ritmo estrangeiro, e houve novo julgamento, para o qual ele inscreveu “As Pastorinhas”, e de novo garantiu o primeiro lugar com a marchinha, que teria sido assim composta: “Eu e o Noel tínhamos feito uma música bonita, de nome “Linda Pequena”; lembrei dela, reformei um bocadinho a letra, o trecho que dizia “linda pequena” mudei para “linda pastora” e “moreninhas” virou “pastorinhas”.

Quanto ao tal “pasodoble”, ele foi cantado em coro pelos duzentos mil torcedores que lotaram o Maracanã para ver o escrete canarinho vencer os espanhóis por 6 a 1 na Copa de 50. Sim, a temível Seleção da Espanha que ameaçara esmagar a Seleção Brasileira, agora tinha de ouvir o coro: “Eu fui às touradas em Madri / parará tchim bum, bum/ E quase não volto mais aqui pra ver Peri beijar Ceci/ parará tchim bum, bum/ Eu conheci uma espanhola natural da Catalunha/ Queria que eu tocasse castanhola e pegasse touro à unha. Caramba, caracoles, sou do samba não me amoles/ pro Brasil eu vou fugir...isso é conversa mole para boi dormir”. Mas, entre os torcedores, um não estava cantando. Pálido, emocionado, Carlos Alberto Ferreira Braga, o Braguinha, não conseguia cantar, e chorava de emoção ao presenciar aquilo tudo.


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