Uma lição de equilíbrio


O que pode acontecer quando duas pessoas da mesma família se unem e se especializam para criar uma empresa? A resposta mais óbvia é que a empresa em questão será muito produtiva e contará com todo apoio da família. Mas o caminho não esteve livre de obstáculos para Karina PattisReiterZieher e Sheila K. Reiter, proprietárias da Prema Vidros e Velas, em Treze Tílias. Em uma conversa com a Êxito, as empresárias dividiram sua história e parte dos seus desafios.


Falem sobre as suas trajetórias empresariais.

Karina: Eu trabalhava na Prefeitura de Treze Tílias e aos 18 anos fui morar na Áustria. Quando me casei, ganhei um presente feito em vidro a partir da técnica “fusing”, que é a sobreposição e fundição de vidro, muito conhecida na região de Murano, na Itália. Fiquei interessada em aprender o trabalho e procurei cursos de especialização na área, como o curso de iniciação na técnica de fusing, na Suíça, e uma especialização feita na VolkshochschuleBregenz, na Áustria. Ainda na Suíça, fiz um curso para velas na fábrica Hongler. Quando retornei ao Brasil, trabalhei como professora de alemão e também atuei na Secretaria de Turismo por três anos, período em que consegui adquirir o forno que usamos até hoje para fundir o vidro. Tive dificuldade, no início, para encontrar matéria-prima para fabricar as peças em vidro, mas fui montando algumas aos poucos no porão de casa e comercializava nas feiras de artesanato do município e da região.

Sheila: Eu trabalhei na área de Recursos Humanos na Kraft Foods (atual Mondelez) em Curitiba durante o período da faculdade. Ao concluir o curso, decidi ir para a Áustria estudar alemão e depois me mudei para a Suíça, onde morei por nove anos e fiz uma pós-graduação em RH na NTB Buchs Suíça e o curso de velas na fábrica Hongler para aprender a produzir velas artesanais. Tinha a intenção de complementar o trabalho da Karina no vidro, já que as velas dentro de copos de vidro são muito comuns na Europa. Quando eu voltei ao Brasil, iniciei a produção com poucos modelos até que descobrimos que uma fábrica de velas palito e de sete dias estava à venda em Salto Veloso.

 

E foi assim que surgiu a Prema Velas e Vidros?

Karina e Sheila: De certa forma. A empresa já existia antes de nós a comprarmos e nós procuramos não nos afastar muito da história que havia sido construída. Nos identificamos com os produtos e com o logotipo já existentes, por isso resolvemos manter o nome e apenas adequar o logo para demonstrar uma mudança, sem romper com as raízes e com o público. Prema significa “Amor supremo a Deus”, o que se adequava muito com o conceito que tínhamos em mente. No primeiro ano fizemos um site para divulgar a empresa e ter maior alcance de vendas, e também decidimos comprar um terreno para transferir a fábrica do porão para um novo local que permitisse ampliar a produção e montar a loja para oferecer uma experiência de compra ao cliente.

Decidimos conscientemente que a estrutura não deveria ficar no centro da cidade, pois nossas referências eram de empreendimentos da Europa, que se assemelham ao nosso modelo de negócio: uma estrutura completa com fabricação dos produtos, loja, gastronomia e entretenimento. Estamos no meio do caminho.

 

Que desafios permearam a história da empresa?

Sheila e Karina: Além das dificuldades iniciais com matéria-prima, nosso maior desafio é chegar até o público. Investimos em um e-commerce para atender a todo o Brasil. Compreendemos que precisávamos tornar a empresa conhecida, pois temos um produto de excelente qualidade e prezamos muito por isso; temos inovações e lançamentos constantes de novos produtos, mas quando as pessoas não conhecem o produto, não compram. E o público brasileiro, de modo geral, não tem o hábito de acender velas aromáticas diariamente como os americanos ou europeus. Nos países mais frios existe uma necessidade quase psicológica da presença de calor ou do clima de estar ao redor do fogo, é quase um sentimento primitivo proporcionado pela vela. A parafina também tem o benefício de neutralizar odores, o que é ótimo para casas fechadas

O que percebemos é o que os hábitos dos brasileiros estão mudando. Hoje há um investimento cada vez maior em bem-estar e beleza, o que nos deixa otimistas acreditando que com o tempo as pessoas terão mais velas acesas em suas casas.

 

Como a empresa organiza o trabalho em equipe?

Sheila: Somos em sete funcionárias. Temos apenas mulheres dentro da fábrica, pois nosso trabalho é bastante artesanal. Além das velas artesanais e decoradas, dispomos de outros produtos como os castiçais, os vidros, semijoias, etc., que exigem muito trabalho manual e delicado. Além da equipe da fábrica, temos sete representantes que são responsáveis pela venda externa. Entre nós duas, eu sou a responsável pela parte administrativa e burocrática da empresa, além do contato com vendedores, fornecedores e desenvolvimento das embalagens. A Karina é responsável pela parte criativa e desenvolvimento de produtos novos, cuidando da produção e da loja para que sempre tenhamos novidades.

 

O que define o sucesso de uma empresa?

Karina: Para nós, o sucesso é construído todos os dias, com determinação, foco e um planejamento estratégico com objetivos definidos. Procuramos pensar não somente em um mês ou em um ano, mas em como o empreendimento estará nos próximos 10 ou 20 anos. Além disso, respeitamos muito a individualidade de cada uma e das nossas colaboradoras. Acreditamos que cada pessoa tem algo importante para agregar na equipe. Se pensarmos além da equipe, podemos dizer que o sucesso é o resultado do atendimento a diversos públicos. Criar possibilidades de atendimento para diferentes pessoas, com diferentes credos religiosos, crenças ou costumes é muito importante para nós, pois vendemos para lojistas, supermercados de todos os portes, floriculturas, funerárias, lojas de decoração, decoradores, casas religiosas e consumidores finais. A compreensão de que era possível atender tanta gente ampliou muito as nossas possibilidades de venda, que deixaram de ser focadas em um único nicho.

Sheila: E como estamos em uma cidade turística, temos a possibilidade de tornar nosso empreendimento em algo atrativo para os visitantes. Isso demanda uma dedicação ainda maior, já que precisamos ficar abertos nos dias em que os turistas estão na cidade, o que significa estar aberto em todos os dias da semana. Mas o resultado é ótimo! Conseguimos proporcionar uma experiência única aos clientes, já que eles têm a possibilidade de conhecer a produção dos vidros e velas: um diferencial que todos adoram pela peculiaridade do negócio!

 

Que dicas vocês dariam para quem está iniciando a carreira empresarial?

Sheila e Karina: O Brasil é um país com muitos desafios para os empreendedores. A carga tributária é muito pesada e a burocracia toma muito tempo produtivo das pessoas, mas também é um país bastante aberto para novas ideias e modelos de negócio. Podemos dizer que definir metas realistas, estudar seu produto a fundo e conhecer o mercado que deseja atingir é essencial para que qualquer negócio possa crescer. Também é importante se rodear de pessoas que tenham o mesmo objetivo e que vistam a camisa da empresa. Qualquer empresário ou empreendedor precisa se manter firme nos momentos difíceis, contar com o apoio da família para superar as adversidades e sempre procurar inovar e inventar coisas novas. Os consumidores não comprarão as mesmas coisas para sempre, eles querem novidades. Por fim, sentir prazer no seu trabalho é algo essencial, pois depositamos tanta energia e tempo em uma profissão que ela precisa ser prazerosa para que tenha sentido.


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