Viver é melhor que sonhar - Jamil Albuquerque


No dia onze de setembro de mil novecentos e setenta e nove, quando fiz 15 anos, ganhei de presente o álbum ‘Street Legal’, do Bob Dylan. Na época eu já era fã e desde então continuo ouvindo e apreciando suas canções. Mas isso não é exatamente importante e nem novidade - tem milhões e milhões de pessoas que também são fãs dele. Até mesmo o comitê que analisa o prêmio Nobel, pois deram a ele um Nobel de literatura, sendo ele um compositor musical. Aliás, o fato de darem a ele este prêmio gerou alguns debates. Uma parceira minha de trabalho foi às redes sociais e “provocou”, perguntando: “Mas afinal, Bob Dylan merece mesmo um prêmio Nobel?” Eu então, escrevi: “A resposta, minha amiga, está soprando no vento”.  

Caminhando no parque 

Dias depois, caminhando no parque e batendo papo com um amigo jornalista, estrategista de mão cheia, falávamos sobre isso e ele me disse: “Jamil, nada mais justo do que dar um Nobel de literatura a um poeta que canta e, sendo assim, o Dylan é de alto merecimento.” 

Ainda no âmbito dos poetas, veja você, leitor, o caso do Belchior, um poeta, contista, dentre os maiores cronistas da música popular brasileira. Como não ver filosofia em versos como estes: “A minha alucinação é suportar o dia a dia e meu delírio é a experiência com coisas reais”; e ainda neste outro: “amar e mudar as coisas me interessa mais”. 

Quem percebe a beleza de versos encantadores como este chega também ao entendimento de que a poesia é a mãe de todas as artes.                       

Ainda sobre Belchior

Ao relembrar o menestrel do Ceará, lembro-me também do quanto todos nós, pessoas “dazantigas”, sentimos a desdita e o ostracismo de Belchior em seus últimos anos de vida. Para mim e outros milhões de fãs, ele sempre foi um artista de lavar a alma. Eu sempre me deleito ouvindo suas canções, principalmente quando estou sozinho; parece-me, não sei bem o motivo, que elas soam um pouco “cafona” quando ouvidas em alguns outros ambientes. E é por isso que eu sinto que Belchior, um dos maiores gênios brasileiros, canta uma espécie de canção do eu.

Ele, como sabem, passou seus últimos dias sumido e improdutivo, vivendo um inferno imerecido, fugindo das pessoas e morando de favor aqui e acolá. Na época destas desventuras, conversando com alguns amigos, nos permitimos dizer, com uma pitada de devaneio, que todos ali estávamos à disposição para dar guarida ao nosso gênio cearense.

Teria o prazer de tomar um café com ele e falar de suas canções, ou “sentaria à beira do caminho pra pedir carona, falando à mulher companheira; quem sabe lá no trópico a vida esteja a mil”, ou lembraria - em todas as boas conversas - que “a felicidade é uma arma quente”; ou ainda se, derradeiramente, ao lhe pedir conselhos, fosse ferido com um de seus versos, diria: “Belchior, não quero o que a cabeça pensa, eu quero o que a alma deseja!”. 

E, desfrutando de mais um gole de café, eu sorriria com gratidão.                   

E você? Como desfruta da poesia em sua vida? 

 

Jamil Albuquerque
Presidente do MasterMind da Fundação Napoleon Hill
Autor do Livro A arte de lidar com pessoas

 


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