ESG - Alinhar as estratégias ambientais, sociais e de governança fará a diferença para sua empresa crescer


Se você já ouviu falar em ESG mas acredita que esse conceito não tem validade para o seu negócio, é bom repensar. Mesmo que você tenha uma empresa pequena, com certeza é do seu interesse ser reconhecido como alguém que não causa impactos ambientais negativos, preocupada com os colaboradores e com uma gestão responsável, econômica e financeiramente viável. 

O conceito está em alta nos mercados de investimentos como preferencial aos investidores. ESG é uma filosofia que busca infiltrar critérios ambientais (environmental), sociais (social) e governança (governance) nas avaliações e decisões dos negócios. Seria um novo termo para algum conceito antigo? O que o ESG pode trazer para as nossas empresas que conceitos como "triple bottom line" e Responsabilidade Social Empresarial (RSE) não trouxeram? Vamos por partes. 

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Como chegamos até aqui?

Vivemos um período de mudança. A pandemia de Covid-19 e a propagação de tantas outras notícias impactantes sobre a emergência climática aceleraram a discussão sobre os temas socioambientais que afligem a humanidade ao redor do mundo. Mesmo antes de 2020, investidores globais reagiram às propostas de Donald Trump (como a sua agenda anti-ESG e a saída do Acordo de Paris) cobrando por melhores práticas socioambientais de governança, enquanto no Brasil a pauta passou a ter mais destaque na mídia diante do avanço das queimadas, do desmatamento na Amazônia e do rompimento da barragem da Vale pela segunda vez, em Brumadinho. Tantos acontecimentos resultaram em um manifesto de 181 CEOs afirmando que as empresas deveriam ter responsabilidade além do próprio lucro, sacramentando uma discussão que já atrai atenções há cerca de 20 anos.

De acordo com Michael Porter as empresas devem liderar uma campanha para voltar a unir a atividade empresarial e a sociedade a partir de um novo modelo, que não seja aquela ideia de geração de valor já ultrapassada, tacanha, que otimiza o desempenho financeiro de curto prazo enquanto ignora as necessidades dos clientes e as influências maiores que significam sucesso a longo prazo. Para o autor, isso explica o fato de muitas companhias ainda ignorarem o bem-estar dos clientes, fingirem que não vêem o esgotamento dos recursos vitais para suas atividades, a viabilidade dos fornecedores e os problemas econômicos das comunidades em que produzem e comercializam seus produtos. Sob este prisma ultrapassado, ainda é justificável transferir a atividade para lugares onde os salários são cada vez menores seria uma alternativa "sustentável" de vencer a concorrência, às custas da exploração dos países e comunidades subdesenvolvidos.

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Mesmo tentando, a maioria das empresas ainda está presa a uma mentalidade de Responsabilidade Social ou de iniciativas filantrópicas com foco socioambiental em que as questões principais estão na periferia. Elas devem estar no centro, no cerne dos negócios. Porter defendeu esta ideia ainda em 2011 com o princípio de valor compartilhado: a geração de valor econômico também cria valor para a sociedade. Não se trata de dividir (partilhar) o valor gerado pela empresa, mas de redistribuir para aumentar o total do valor econômico e social.  Segundo o autor, um bom exemplo dessa diferença de perspectiva é o movimento "fair trade" no comércio, cuja meta é aumentar a parcela da receita direcionada aos agricultores de baixa renda, pagando um preço mais elevado pelos mesmos produtos. Não se trata de comércio justo (que redistribui o lucro), mas de compartilhar o valor para melhorar as técnicas, aumentar a eficiência, o rendimento, a qualidade e a sustentabilidade dos produtores. Parte da premissa de Porter, portanto, prevê que o lucro que envolve um propósito social é uma forma superior de capitalismo, aquela capaz de fazer as empresas crescerem e a sociedade avançar mais rapidamente. É a mudança do capitalismo shareholder para o capitalismo stakeholder. 

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Shareholder ou Stakeholder? 

O que é isso mesmo?

- Shareholders são acionistas, que podem ter uma ou mais ações de uma empresa. Esse modelo de capitalismo tem como prioridade máxima o lucro para os acionistas.

- Stakeholders são as partes interessadas na empresa. São pessoas ou organizações que podem ser afetadas por seu projeto de forma direta ou indireta, positiva ou negativamente. Como exemplos clássicos temos os clientes, fornecedores, funcionários, comunidade e investidores/sócios.

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Entenda o ESG

Pensar no impacto ambiental, social e nas práticas de governança adequadas se tornou um forte apelo para os investidores a ponto de alguns fundos de investimentos apontar que chegaremos a ver um dia em que a empresa que não adotar estas práticas não terá investidores. No ano passado, o Fórum Econômico Mundial (Davos) buscou promover uma guinada do capitalismo shareholder para o stakeholder já que não é interessante nem para empresas e nem para acionistas que o futuro não seja inclusivo. Na ocasião, a CEO da IBM defendeu que o capitalismo stakeholder não é altruísmo ou caridade, mas uma boa decisão comercial.

Falando em decisões comerciais, alguns especialistas apontam que o ESG é uma forma de analisar o risco de destruição de valor de uma empresa em múltiplas frentes. Organizações que levantam bandeiras de inclusão, por exemplo, são constantemente bombardeadas nas redes com exposições sobre a incoerência entre a bandeira e a ação caso suas lideranças sejam apenas homens brancos. Ou então, suas lideranças são igualitárias em termos de gênero, mas estão envolvidas em um grande esquema de corrupção. A governança, nesses casos, é falha. O valor da empresa cai. O risco para os investidores é alto. O ESG entra em cena como uma forma de evitar essas perdas, reduzindo o risco.

Então o segredo é focar no marketing positivo? Marketing é um dos termos mais simples adotado pelos consumidores para falar sobre ações que não saem do papel efetivamente. "É marketing" é o novo (nem tão novo assim) termo para a maravilhosa palavra "balela" ou "enganação". Não existem atalhos. Ou a sustentabilidade e o ESG partem de dentro para fora, com efetividade, ou é preciso se preparar para a avalanche de críticas. Um exemplo: o caso Dieselgate da Volkswagen, primeiro episódio da série Dinheiro Sujo (Netflix), que veio a público em 2015 quando a montadora desenvolveu um software para manter a emissão de gases poluentes dentro dos limites apenas durante os testes. Os compradores, incentivados pela baixa emissão vista nos testes, foram vítimas de uma fraude tão elaborada que ainda repercute negativamente. Outros cases poderiam ser mencionados como a Vale, excluída do Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE, da B3) depois dos crimes ambientais ocorridos com o rompimento das barragens de Mariana e Brumadinho.

A análise de risco também passa pela tecnologia da revolução 4.0, por sua evidente facilidade ao fornecer dados para análise de governança e balizar decisões estratégicas.

Tudo isso para chegar ao que importa para a maioria dos executivos: os objetivos. Quais são os principais objetivos da cultura ESG? As ações das companhias envolvidas com ESG se direcionam para os 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas, conhecidos como os ODS. Antes de fomentar que cada companhia desenvolvesse sua própria agenda, o que não é algo ruim, os esforços internacionais se movimentaram para unificar as ações em torno dos ODS e suas metas - conceitos mais familiares aos empresários.

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Saiba mais https://odsbrasil.gov.br/ 

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Como isso pode funcionar na minha empresa

Tudo começa com uma área de sustentabilidade. Pequenas empresas podem não ter criado essa área específica ainda, até mesmo como uma estratégia para não cair na situação de uma empresa com 10 colaboradores em que 7 são gerentes de alguma coisa. A posição pode estar atrelada à diretoria de comunicação social, de relações institucionais, compliance ou até mesmo à vice-presidência (ou nomes semelhantes). Está tudo bem não ter esse cargo, exceto se você deseja chamar atenção de investidores em qualquer escala.

Normalmente, os departamentos de sustentabilidade elaboram uma matriz de materialidade com base nos indicadores GRI (Global Reporting Initiative). No Brasil, o pioneirismo para divulgar seus relatórios pela GRI coube à Natura Cosméticos em 2000, seguida por outras como Banco Real, Aracruz Celulose, Bunge, Duratec, Medley, Petrobrás, Banco Itaú, Wal-Mart Brasil, etc. Uma pesquisa desenvolvida por acadêmicos da UFSC indicou que até 2010 o Brasil atingiu a quarta posição em volume de publicações em GRI no mundo. A matriz cria um ranking de tópicos relevantes para cada stakeholder e cruza com tópicos relevantes para o negócio. A prioridade será do que puder reunir maior impacto para os dois.

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Na teoria é ótimo. Mas e na prática?

Na prática, o departamento de sustentabilidade já começa emperrado em algumas empresas em crescimento. Tendemos a pensar que ele deve ser similar ao que vemos nas grandes companhias, logo, precisamos primeiro crescer para depois nos preocupar com isso. Erramos, desculpe. Primeiro pensamos nisso e crescemos porque pensamos nisso primeiro. O tamanho ideal da equipe vai variar de acordo com a empresa e a sua área de atuação. 

A determinação do tamanho ideal vem do conhecimento do seu negócio. Não há outro jeito a não ser conhecer todos os elementos da sua empresa que possuem relação com o ESG e diante da grandiosidade da ação determinar uma pessoa dedicada exclusivamente para pensar nisso, criando coisas que ainda não existem. Os membros da equipe de ESG devem ter a liberdade de criar estratégias que influenciem a empresa toda e reportá-las diretamente a alguém com poder de decisão caso seu líder não tenha esse poder. Também é importante que esta equipe seja diversa (você não quer correr o risco de perder valor de marca), tenha métricas, metas de desempenho coletivas e individuais bastante claras, orientação de dados e um orçamento próprio. 

Em alguns momentos, a empresa vai precisar investir em ESG. Terá que contratar uma assessoria, investir em certificação, medidas de transparência e substituição de tecnologias. Vai ter dilema, obviamente. É fácil optar por uma tecnologia não poluente quando ela pode ser alimentada a partir dos seus próprios dejetos ou quando a opção poluente equivalente é mais cara. O problema será quando a tecnologia não poluente for mais cara. E se a sua empresa tem o costume de pender para o lado financeiro sempre que for tomar uma decisão, implantar o ESG ficará cada vez mais difícil, se é que será possível. A agenda ESG é uma cultura que atinge todos os departamentos, logo, pode demorar um pouco para ser incorporada e condicionar as decisões sem que haja alguém supervisionando.

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É por essa razão que alguns especialistas têm feito uma indicação ousada: divulgar as decisões o quanto antes para não voltar atrás. Depois de divulgar, seus stakeholders vão cobrar! Não honrar com a sua palavra e voltar atrás nas decisões pode ser muito ruim, por isso, essa é uma estratégia de prevenção para evitar recaídas. Na mesma onda da divulgação, contar os resultados imediatos pode compensar o que você deixou de ganhar ao melhorar a sua imagem ou criar uma nova imagem positiva da sua empresa. 

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As métricas

As métricas sobre ESG ainda são debatidas. 

Por um lado, o Fórum Econômico Mundial liderou a elaboração de métricas do capitalismo stakeholders compiladas por grande companhias de auditoria pelo mundo, o chamada Measuring Stakeholder Capitalism, que defende que as métricas ESG no mundo sejam baseadas em parâmetros já conhecidos para facilitar a adoção pelas empresas. O compilado de métricas (21 críticas e 34 expandidas) se divide em quatro pilares: governança, planeta, pessoas e prosperidade. Suas métricas, por sua vez, são declaratórias e não classificatórias, sendo que a classificação ocorre a partir da comparação dos relatórios ESG das empresas, que poderão formar um ranking a partir de indicadores relevantes para cada atividade. O efeito colateral? O próprio ranking assusta os investidores, com medo de que as empresas que ocupem as posições mais baixas sejam expostas à cultura do cancelamento.

Na outra ponta,está o marco regulatório mais completo e avançado, assinado pela União Europeia. O documento elaborado em 2019 contrapõe a proposta do Fórum Econômico Mundial e foi criada do zero para entrar em vigor no final de 2021. Com boas regras de preservação ambiental, economia circular e controle de poluição, essa proposta ainda tem alguns problemas que podem atingir todo comércio global. O primeiro deles é que os setores abordados nas métricas são mais relevantes para o PIB da UE e o desafio de harmonizar os acordos comerciais já estabelecidos com os critérios ESG podem acabar em disputas na Organização Mundial do Comércio. Outro ponto que é preciso discutir ainda diz respeito às regras de governança corporativa, que, nessa primeira versão, não aponta qualquer indicador para avaliação do impacto social além do que já foi definido pela Organização Internacional do Trabalho.

Mesmo sem uma definição clara sobre as métricas atribuídas ao ESG, vale a pena investir em preparação para o que vem por aí. Enquanto todos os anos as empresas perdem profissionais que não se engajam com esse tipo de prática por obsolescência, outros mais engajados conseguem entrar no mercado e fazer a diferença. Há quem acredite, ainda, que os herdeiros das empresas sejam os grandes vetores do investimento em ESG em menos de 10 anos. 

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Como você ocupará o seu tempo e conduzirá a sua empresa até 2030? Essa é a questão que percorre o planeta - se ainda existir planeta.

 


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