WEB CONFERÊNCIAS - nos acostumamos com elas. E agora?


Esquecer o microfone ligado? Passar em frente à câmera de pijama? Estas gafes foram diminuindo conforme nos habituamos à rotina de reuniões por webconferência feitas do conforto da nossa casa, do home office ou até mesmo de uma sala dentro da empresa. Não é raro encontrar ambientes novos para participar de reuniões virtuais, seja para alinhar assuntos com parceiros, fornecedores ou clientes, seja para coordenar o trabalho de quem está em home office. web conferencia

Se conectar para conversar com pessoas queridas foi o mote de 2020. Se conectar para trabalhar é o mote de 2021. Enquanto lá em abril de 2020 começamos a descobrir as lives, em que poderíamos contribuir com causas sociais, nos conectar com os ídolos ou até mesmo dar um salto em nossa relevância diante do mercado, essa onda começou a diminuir conforme o ano avançou. Demos as boas-vindas a 2021 com uma verdadeira ressaca de lives.

De acordo com o Google Trends, em um comparativo de agosto de 2020 a agosto de 2021, o fluxo de buscas pelos termos "live hoje" atingiu seu pico entre 16 e 22 de agosto de 2020 e teve seu pior índice entre 24 e 30 de janeiro de 2021. A busca voltou a ter altos e baixos, entretanto, o termo não ultrapassou os 60% de popularidade desde o último mês de setembro. Agora, no início de agosto de 2021, a busca vive um período amargo quando gira em tornos de menos de 30% de popularidade.

A queda pode ser explicada. O boom do entretenimento ainda não acabou, mas divide espaço com outras formas de conexão, adotadas em ambientes empresariais e profissionais. Nos mesmos períodos, os termos videochamada e webconferência apresentam muito mais buscas do que as lives, em parte porque muita gente precisou aprender a lidar com elas, em parte porque ainda não conseguimos nos livrar delas.

"No atendimento às empresas, já realizei até algumas seleções por webconferência, que nos trouxeram tranquilidade e segurança para as decisões a que se propunham. Com algumas adaptações, aplicamos vivências muito parecidas com as utilizadas nos momentos presenciais e assim, conseguimos adaptar as atividades planejadas", conta a psicóloga Kátia Caon Colombelli (CRP 12/07069), fundadora e diretora da Vínculo - Desenvolvimento Individual, Familiar e Empresarial, de Chapecó. web conferencia katia

Kátia também é psicoterapeuta de casais e famílias, especialista em gestão de pessoas e hipnoterapeuta e atende nas áreas clínica e empresarial, por isso, têm uma visão bastante abrangente sobre as implicações das webconferências no presente e no futuro. Segundo ela, vivemos um tempo de provocação para a inovação, de grandes quebras de paradigmas na vida estudantil, pessoal ou laboral, em que as webconferências vieram para ficar e reduzir as limitações com relação à qualificação, relacionamento e oferta de produtos ou serviços.

"Que 'levante a mão' quem passa uma semana sem participar de uma webconferência! Dos pequenos aos idosos, fomos desafiados a usar estes recursos. Em meu cotidiano, participo de pelo menos cinco a oito webconferências diariamente, desde o início da pandemia", explica Kátia.

Já na visão do oftalmologista Ricardo Alexandre Stock (CRM/SC 9540 - RQE 6151), sócio-proprietário do Centro Oftalmológico Belotto Stock (COBS), de Joaçaba, o fator determinante para a manutenção das webconferências gira em torno do aspecto econômico. "Por que uma empresa terá gastos com aluguel, limpeza, funcionários de apoio, estrutura e processos físicos se pode trabalhar com home office e ter resultados iguais ou melhores? Cada caso é único, não podemos acreditar em uma regra geral que norteie o que fica e o que vai embora junto com o vírus", provoca o médico.

O que está na legislação e o que se vê no cotidiano

Se as buscas aumentaram na internet, também se ampliaram as discussões sobre as implicações legais da modalidade no que tange o exercício profissional de várias classes. Na medicina, por exemplo, o amparo legal data de 2002, já que a resolução 2227 do CFM foi revogada. "Isso mesmo!", aponta Dr. Stock, web conferencia stock

"Discutimos a telemedicina há duas décadas e é óbvio que uma resolução de 20 anos atrás não contempla várias novidades e mudanças sociais. Com a chegada da pandemia, a discussão veio à tona de forma emergencial, com muito desgaste de energia e tempo, chegando a decisões que nem sempre são as melhores".

O termo telemedicina também é uma denominação genérica para um assunto muito mais complexo. Segundo Dr. Stock, existem muitas "teles" dentro da telemedicina, tais como a teleconsulta médica, teleassistência médica, tele-educação médica, emissão de laudos e emissão de prescrições. E mesmo que a resolução seja antiga, o momento impulsionou um avanço impressionante para a área com o  Conselho Regional de Medicina de Santa Catarina e o Conselho Federal de Medicina evoluindo juntos para criar ferramentas de cadastro de médicos e pacientes, criando plataformas de apoio e soluções com sistemas de ponta para que se possa ter um amparo técnico e legal para médicos e pacientes.

Na psicologia, a primeira resolução sobre o teleatendimento foi publicada em 2012 e substituída em 2018 pela CFP nº11/2018, que regulamenta a prestação de serviços psicológicos prestados por meio de tecnologias da informação e da comunicação.

"O atendimento era autorizado desde antes do início da pandemia, porém, pouco utilizado na nossa região e quase desconhecida pelos clientes. Pessoalmente, via o método com muitas dúvidas e ressalvas em relação à evolução e resultados desejados. Como construir e manter o vínculo terapêutico, que é um fator essencial no desenvolvimento do trabalho do psicólogo em qualquer área de atuação?", questionava-se Kátia.

Sem que soubesse, teria um laboratório sobre a modalidade quando duas de suas clientes precisaram dar continuidade ao atendimento durante o período em que estavam em intercâmbio. 

Apesar do aquecimento inesperado, quando a pandemia empurrou todos os seus clientes para o atendimento à distância, Kátia notou que as dificuldades não se restringiam ao previsto legalmente.

"Os clientes tinham dificuldade para encontrar um local privativo, sigiloso e silencioso para o atendimento. Isso me forçou a adaptar não apenas uma nova estrutura para mim, mas também um novo horário de trabalho para atendê-los quando conseguissem esse momento de sossego e recolhimento ", divide a psicóloga. Entre seus clientes, 85% se dispôs a experimentar e seguir com o atendimento remoto ainda em abril de 2020.

Quando a possibilidade para retornar ao atendimento presencial apareceu, Kátia ofereceu a alternativa aos clientes e se deparou com outras barreiras: a máscara e a ausência de contato.

"A webconferência tem se mostrado a melhor alternativa para o atendimento, porque conhecer e atentar para as menores expressões faciais e mudanças corporais do cliente faz bastante diferença em nosso trabalho, impactando inclusive no tempo total de atendimento. Na Psicologia, quanto mais desprendido de máscaras (visíveis e invisíveis), melhor é a construção do vínculo terapêutico, mais rápida é a compreensão da dinâmica de funcionamento do cliente e, por consequência, os resultados são melhores e o tratamento termina antes. No atendimento empresarial acontece o mesmo", salienta.
Já no aspecto do contato, a impossibilidade de abraçar para recepcionar os clientes e demonstrar afeto se tornou um desafio adicional.

De volta à medicina, Dr. Stock destaca a interferência do fator econômico nas tendências de continuidade e adesão à telemedicina.

"Acredito que este é um caminho sem volta, pois pode tornar a estrutura mais enxuta, com menor custo, atingindo um grande número de pessoas. Isso é ruim? Prefiro deixar que você crie a sua própria opinião", diz.

E para dar base para tanto, o médico indica o benefício inequívoco da modalidade em locais de difícil acesso, para populações de terras longínquas ou para a população de cidades de pequeno ou médio porte que não atraem algumas especialidades, mas que podem ter laudos especializados através da telemedicina.

"O que chamamos de 'problema da telemedicina' vem da dualidade existente entre o seu êxito total em locais cujo acesso à medicina era nulo e o interesse de grandes corporações e fundos de investimentos que veêm na telemedicina um nicho de investimentos e uma fonte de renda, sem pensar na qualidade, na relação médico/paciente ou no paciente em si. É aí que reside a dificuldade de controle e regulamentação", aponta.

Com o empurrão da pandemia, o Centro Oftalmológico Belotto Stock se viu impelido a avançar, sem abrir mão do atendimento preferencial. "Nós temos uma dificuldade enorme para avaliar um olho vermelho por uma foto. Pode ser conjuntivite, herpes, inflamação interna do globo ocular ou apenas uma irritação simples. Precisamos de equipamentos que aumentam o tamanho da imagem do olho para ver detalhes que norteiam nosso raciocínio", diz Dr. Stock. Contudo, também foram criados canais diretos de teleassistência médica ao paciente já avaliado presencialmente através do contato de Whatsapp, permitindo o esclarecimento de dúvidas e questionar mais sobre seus sintomas e tratamento. Na opinião de Dr. Stock, o atendimento presencial apresenta desafios, mas ao tomar todas as medidas de proteção individual, o risco de contrair o coronavírus em uma clínica médica é o mesmo de qualquer estabelecimento comercial, portanto, muito baixo.

Agora que nos adaptamos, o que esperar?

Com a naturalização das webconferências, já é possível vislumbrar a adaptação de cada pessoa ao modelo e identificar as vantagens do novo contexto. Entre os pacientes de Kátia, a maioria compreendeu a importância de não interromper o tratamento, mesmo que permaneça o desejo de ter atendimentos presenciais, sobretudo para aqueles que têm dificuldades com a tecnologia ou para encontrar um local adequado para o atendimento. Agora, a psicóloga vislumbra uma queda no volume de desistências e um aumento na procura por atendimentos clínicos e empresariais, que cresceram em pelo menos 20% em comparação aos indicadores da empresa em 2019 e 2020. Assim, hoje estão em suas fichas pessoas nunca vistas presencialmente. 

"Acho importante não parar de evoluir. Por isso temos como prática desenvolver pequenas pesquisas com os clientes para verificar a eficácia do atendimento, especialmente com essa modalidade virtual", explica.

Na última pesquisa realizada, 100% dos pacientes responderam que estão evoluindo no processo terapêutico. O sucesso pode ser parcialmente explicado pelas vantagens do atendimento remoto, que vão desde a otimização do tempo, já que o deslocamento é desnecessário, a ausência do uso da máscara, que garante mais conforto para falar e ser visto, além da segurança e conforto de estar em seu lar. web conferencia cuidado

Para a medicina, além da possibilidade de atender regiões desassistidas, pode-se verificar um avanço importante no que se refere ao compartilhamento de conhecimentos e informações. Para Dr. Stock, o acesso a aulas remotas, congressos, eventos e reuniões de grandes centros de estudos se tornou mais fácil, pois basta realizar a inscrição (que muitas vezes é gratuita), confirmá-la por e-mail e desfrutar do evento.

"Uma grande desvantagem para os participantes rotineiros de congressos, como é o meu caso, é a ausência de encontros informais, onde se discutiam casos, tendências, equipamentos, particularidades de determinadas técnicas cirúrgicas novas, etc. Não temos como ir atrás do mestre ao final da aula para mostrar uma foto de um caso. É mais difícil quando se tem que 'levantar a mão' em uma plataforma para perguntar algo que será gravado, discutido com todos na sala e com limite de tempo", conta o médico que participava de uma média de sete congressos por ano.

Outro grande desafio apontado pelo Dr. Stock se refere à visita às feiras e estandes que aconteciam junto com os grandes congressos. Nelas, era possível entrar em contato com novas tecnologias e lançamentos de medicamentos, negociar equipamentos e discutir com os colegas quais eram as vantagens e desvantagens de cada aparelho.

Cuidado extra

Os novos hábitos de vida em frente às telas dos computadores e celulares trazem danos aos olhos. Uma pesquisa conduzida pelo Dr. Ricardo Stock e publicada na Revista Brasileira de Oftalmologia identificou a incidência sintomas da Síndrome Visual do Computador (SVC) nos ambientes de trabalho. A SVC se refere a um conjunto de sintomas frequentemente encontrado em usuários de computadores, tais como dor nos olhos, dor de cabeça, sensação de olho seco e cansaço visual. 

Outro problema que atinge a saúde visual da população é a epidemia mundial de miopia decorrente do uso excessivo de celulares por crianças. Esta questão aparentemente não encontra solução, já que é motivada por um dos principais elementos da vida moderna, inclusive fomentado pelas instituições de ensino, e ecoa no grande aumento de novos casos de miopia em crianças.

Na pandemia, o controle sobre as horas de uso e uso correto de smartphones e computadores ficou muito mais difícil, afinal todas as idades vivenciam o mesmo hábito. Em alguns casos, como dos trabalhadores e estudantes, é uma necessidade. Entretanto, deve-se tomar cuidado para que não se torne um vício.

 


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