Tenho sintomas de Covid. Vou ao hospital ou à UPA?


A Covid-19 já vitimou mais de 90.000 pessoas no Brasil e transformou todas as estruturas ao longo de 2020. De repente, noticiários foram invadidos com informações sobre a doença e a comunidade científica segue em pesquisas incessantes na tentativa de conhecer mais sobre o vírus e identificar possíveis vacinas. Enquanto a vacina não chega, a doença que chegou a ser comparada à H1N1 segue fazendo vítimas e internando pessoas em todos os estados e o melhor aliado da população é o conhecimento.

A Covid-19 é a doença causada pelo coronavírus (Sars-Cov-2), um vírus da família coronaviridae, que causa doenças no trato respiratório de humanos e animais. O grupo já é conhecido e possui sete espécies que podem infectar humanos, três delas com propensão à produção de doenças graves: Sars-Cov-2, agente da pandemia atual, Sars-Cov, agente da pandemia de Sars em 2002-2003, e Mers-Cov, causador da Mers, uma síndrome respiratória que acometeu o Oriente Médio. Outros coronavírus, por sua vez, estão associados a doenças com sintomas mais leves do que essa que nos paralisou desde o primeiro trimestre. Identificado na China, o vírus se espalhou rapidamente pelo globo, considerando o fluxo de pessoas que transita ao redor do planeta diariamente. Com uma capacidade alta de infecção, a doença deixou um rastro de paralização e medo por onde passou. Além disso, por ser um vírus ainda novo para a comunidade científica, é natural que persistam muitas dúvidas sobre como agir diante dos sintomas.

DO SINTOMA AO TRATAMENTO

Com sintomas similares a uma gripe, não é possível diferenciar a Covid-19 dos outros resfriados apenas diante dos sintomas. De acordo com Dr. Rafael Bortolato, médico emergencista e coordenador do Pronto Socorro do Hospital Salvatoriano Divino Salvador, a atual circunstância exige medidas de preservação da vida do paciente e adequações sanitárias para resguardar a saúde do restante da população. “Não é toda pessoa que desenvolve sintomas que deve procurar a emergência. Ao ter sintomas como febre, tosse, dor de garganta, dor de cabeça, dor abdominal ou no corpo, você deve procurar ajuda médica. Mas essa ajuda está disponível de três formas: nas Unidades Básicas de Saúde, nas Unidades de Pronto Atendimento e no Hospital. Casos leves, que apresentam febre baixa, dor de cabeça leve e não têm falta de ar devem procurar unidades menos complexas como as UBS ou a UPA. Aqui em Videira, na UPA existe uma estrutura chamada gripário, montada para os casos suspeitos. Esse paciente vai ser atendido pelo médico, que vai verificar se ele pertence a um grupo de risco, se apresenta fatores de risco e ou algum sinal de complicação durante o exame físico. Havendo esses sinais ou um potencial de complicação, ocorrerá a transferência desse paciente para o Hospital, onde haverá uma nova consulta e a solicitação de exames complementares”, salienta.

Apesar do Ministério da Saúde ter orientado inicialmente que a população aguardasse a manifestação mais presente dos sintomas, essa visão foi alterada no início do mês de julho. Atualmente, pede-se que o paciente procure atendimento médico tão logo os primeiros sintomas sejam percebidos como uma forma de evitar o agravamento da doença. Cientistas de Singapura descobriram que pessoas infectadas só apresentam os primeiros sintomas cerca de dois dias depois de terem a capacidade de contaminar outras pessoas e permanece como um agente infeccioso até 10 dias depois do início dos sintomas, embora a replicação viral diminui rapidamente depois da primeira semana.

No organismo, a Covid-19 apresenta três estágios básicos. No primeiro deles, considerado leve, ocorre a entrada do vírus no organismo, seja pela boca ou pelo nariz, e sua transição até o pulmão (mais comum) ou estômago. Nessa etapa, o corpo lança uma defesa imunológica padrão com a liberação de uma proteína que inibe a capacidade de replicação do vírus. Embora muitas pessoas consigam eliminar o vírus ainda nesse estágio, uma parcela da população atinge o segundo estágio da doença, quando há o envolvimento pulmonar. Pacientes expostos a uma grande carga viral ou que tem o sistema imunológico debilitado podem permitir a replicação do vírus antes que o sistema imunológico o controle com uma resposta adaptativa e o primeiro órgão atacado normalmente é o pulmão. Já no terceiro estágio, considerado grave, ocorre uma hiperinflamação sistêmica desencadeada por uma reação exagerada do organismo, que produz mais proteínas inflamatórias.

Os exames de identificação da doença também são variáveis em função do período em que existem os sintomas. Os testes PCE são realizados diante de sintomas iniciais, com cerca de 3 a 7 dias de contaminação, através da análise de uma amostra coletada do nariz do paciente para identificar a presença do vírus no organismo. Já os testes rápidos e a sorologia são solicitados pela equipe médica pelo menos de 7 a 10 dias depois do contágio para verificar a produção de anticorpos frente à infecção.

No que tange ao tratamento hospitalar, Dr. Rafael explica que estudos científicos bastante sólidos têm apontado bons resultados com medicações com corticoides, antibióticos e anticoagulantes. Entretanto, o tratamento do paciente hospitalizado e do paciente isolado em sua casa é diferenciado em função do agravo da doença. Ainda assim, toda prescrição deve ser individualizada.

A UTI E OS CUIDADOS GERAIS

Pacientes com casos graves, que precisam de internação na UTI em decorrência da pneumonia causada pela doença tendem a precisar de 10 a 20 dias de internação. Outros, por sua vez, precisam de atendimento especializado e podem entrar em coma. Segundo o Painel de Avaliação do Risco Potencial do Estado, divulgado em 23 de julho, o Meio-Oeste passou a fazer parte das regiões consideradas de risco gravíssimo quanto a propagação da Covid-19. Para Dr. Rafael, a população precisa continuar usando máscara, manter o distanciamento de 1 a 2 metros das outras pessoas, cobrir a boca com o braço ao espirrar, evitar levar a mão à boca, olhos ou nariz, evitar cumprimentar com a mão, lavar sempre as mãos e passar álcool gel sempre que estiver disponível. “Tenho visto muita gente nos supermercados com crianças e outros acompanhantes. Isso é perigoso porque as crianças gostam de explorar o mundo, colocam objetos na boca ou levam a boca aos objetos e mesmo que não desenvolvam a doença, se tornam transmissores. Agora, no inverno, aumentaram muito os números de atendimentos com sintomas respiratórios e todos serão tratados como suspeitos e serão direcionados ao gripário, por isso a população deve procurar atendimento somente se houver sintomas. Também salientamos que o hospital não deve ser procurado para consultas simples, exames de rotina, etc. Hospital é para casos que precisam de investigação adicional, internação ou de emergência. Estamos no meio de uma pandemia, mas as pessoas continuam tendo infarto, acidentes, etc., e a emergência continua dando a eles a prioridade no atendimento”, conclui o doutor.

 


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