Cerveja artesanal é campo para inovação


Presente em muitas mesas brasileiras, as cervejas artesanais ganham cada vez mais espaço na mente e no coração dos consumidores em função de seu apelo inovador. Para se manter no mercado, microcervejeiros têm investi- do em novas formas de atrair clientes e entregar seus produtos através do delivery com menores custos e perdas envolvidos. Soluções cada vez mais criativas também são características do perfil do empreendedor cervejeiro, que tem alta escolaridade e propensão à mudança.

Um produto artesanal e que surgiu na época do homem das cavernas está conseguindo driblar a atual crise econômica graças à inovação. Há registros arqueológicos representando o processo de produção de uma bebida fermen- tada feita a partir de cereais e usada como mercadoria e moeda seis mil anos antes de Cristo: a cerveja!

A bebida alcoólica mais consumida no mundo atual é considerada responsá- vel — juntamente com o pão — pela Revolução Agrícola, período em que a humanidade deixou de ser nômade e passou de coletora-caçadora a seden- tária-fixa e agricultora, demonstrando seu poder de quebrar paradigmas e incitar à mudança.

A recessão que se instalou devido à pandemia da Covid-19 afetou princi- palmente as micro e pequenas empresas. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística — IBGE — na primeira quinzena de junho, 17,6% das empresas do Brasil encerraram suas atividades em definitivo, sendo que quase a sua totalidade — 99,2% — possuíam até 49 funcionários. Diante deste cenário desafiador, é preciso brindar a um segmento que, mes- mo composto basicamente por empresas que faturam menos de R$ 30 mil por mês, consegue manter empregos e as atividades.

O químico industrial e fundador da Mega Litro — Inteligência em Bebidas, consul- toria para o mercado de bebidas artesanais, Daniel Janke, vê com cautela o momento: “Quando as atividades voltarem ao normal é que vamos descobrir quantas indústrias resistiram ou não, mas, além da crise, a maioria das falências é por problemas de ges- tão. Quem consegue desenvolver uma gestão eficaz, divulgação e campanhas nas re- des sociais, implementar tele-entrega e agregar serviços está conseguindo se manter”. As microcervejarias acabam atendendo um nicho do mercado que é fiel e sedento por novidades.

O consultor destaca, ainda, a criatividade das receitas brasileiras, usando frutas locais e criando até um estilo próprio, o Catarina Sour. Fruto da união de cervejeiros caseiros e independentes de Santa Catarina com o objetivo de criar uma cerveja com ingredientes locais e adequada ao clima quente, o gênero é reconhecido internacionalmente. Janke lembra, também, que as cervejas especiais atendem a um mercado de nicho. “Te- mos cervejaria produzindo exclusivamente cerveja sem glúten, por exemplo, que é um processo super complexo; outras, focam no estilo alemão, com bebidas pilsen, à base de trigo ou defumadas; há as de estilo inglês, que salientam o dulçor, com um toque de caramelo; as belgas, com cervejas frutadas, cheias de especiarias e mais alcoólicas; e há as de estilo americano, que fazem uma releitura das europeias, intensificando esti- los. O brasileiro segue mais a linha americana, adaptando tendências internacionais e aprimorando-as.”

O presidente da Câmara Setorial da Cadeia Produtiva Cervejeira do Ministério da Agri- cultura, Pecuária e Abastecimento — Mapa — e diretor da Associação Brasileira da Cerveja Artesanal — Abracerva — Carlo Lapolli, também elogia essa diversificação: “Durante quase 100 anos, as cervejarias industriais afunilaram os estilos de cerveja até termos só pilsen no mercado. Hoje, há centenas de estilos produzidos pelas pequenas. O uso de madeiras e frutas nacionais acabou sendo uma grande inovação que os inde- pendentes trouxeram e que está até sendo copiado pelas grandes cervejarias”. Tristeza, estresse, ansiedade e falta de opções de entretenimento, aliados a lives patroci- nadas por supermercados e deliverys, contribuíram para que o brasileiro ingerisse mais bebidas alcoólicas, chegando a um aumento de 18%, conforme a ConVid — Pesquisa de Comportamentos, estudo da Fundação Oswaldo Cruz — Fiocruz — sobre a influ- ência da pandemia na vida dos brasileiros. Crescimento semelhante ocorreu em todo o mundo, e ocasionou até mesmo um alerta da Organização Mundial de Saúde — OMS — pedindo que governos e empresas reduzissem a venda durante a quarentena. Apesar do consumo em alta, a Ambev, que domina o mercado das cervejas industria- lizadas no país teve uma queda de 56% no lucro neste período. Isso se justifica pelo fechamento de bares e restaurantes, já que poucas cidades e regiões adotaram a Lei Seca no país. 

O distanciamento social afastou os clientes dos bares, mas o copo continuou na mão. E nessa hora, ser pequeno facilitou o contato com o consumidor, já que as compras por delivery costumam ocorrer de empresas perto de casa.

O alto nível de escolaridade do empreendedor também mostra o quanto ele é aberto ao aprendizado. Além disso, justamente por seu tamanho, os independentes conse- guem conhecer o seu consumidor mais de perto. O produtor de cervejas especiais, que já vendia diretamente ao consumidor final ou tinha poucos intermediários, conse- guiu atender a essa demanda com agilidade, sem precisar implantar grandes soluções tecnológicas de atendimento, valendo-se muitas vezes apenas de um smartphone e do relacionamento construído pela marca, aliado a um maior engajamento com sua clientela através de redes sociais.

Em recente live sobre a situação atual do mercado cervejeiro independente, Lapolli demonstrou preocupação com o cenário de instabilidade do país, mas salientou algumas características que contribuem para a resistência do setor: “A gente tem demonstrado uma resiliência muito grande, porque temos rapidez em nos adaptarmos. Delivery a gente conseguiu abrir muito rápido, e-commerce também… isso antecipou muito o processo de digitalização da cerveja e mostra que o nosso cervejeiro não está acomo- dado, ele está tentando resolver o problema”.

O mercado de cervejas especiais já vinha apresentando resultados favorá- veis, com um crescimento médio sustentado de 36% no número de cerve- jarias registradas nos últimos cinco anos, de acordo com o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.

De acordo com a Pesquisa Sebrae – O impacto da pandemia do coronavírus nos pe- quenos negócios, o grau de inovação dos pequenos negócios foi essencial na redução do impacto causado pelo novo coronavírus nas finanças. As perdas foram menos significativas entre as empresas mais inovadoras.

“O momento de diminuição ou parada na produção causado pela quarentena fez com que os cervejeiros olhassem para dentro das empresas, buscando otimizar processos internos, reduzir desperdícios, reorganizar-se, aperfeiçoar-se, implantar novos siste- mas. As pessoas estão aproveitando essa parada para retomar o cuidado com o detalhe da empresa”, comenta Lapolli.

Um exemplo disso foi a capacidade de adaptação de embalagens mais adequadas ao delivery ou ao drive-thru. Muitas cervejarias e brewpubs ( acostumados a ven- der a bebida direto da torneira ou em barris tiveram de providenciar latas, garrafas e growlers assim como rótulos para seus produtos. “A My Growler viu que a grande oportunidade no mercado cervejeiro estava na dis- tribuição. Iniciamos nossas atividades há quatro anos como distribuidora de growlers para microcervejarias e brewpubs. Nós trouxemos o conceito de venda de cerveja a granel para o Brasil”, destaca Rodrigo Fernandes, proprietário da empresa. “Também inovamos ao incluir um QR Code em nossos recipientes e um aplicativo para regis- trar e avaliar as bebidas, favorecendo o envolvimento com o consumidor e a logística reversa, uma atitude ecológica” reforça. 

Dois anos depois, o empreendimento passou a atender também o usuário final, com uma loja física na Zona Norte de Porto Alegre / RS. No local, é possível degustar e abastecer growlers, mini kegs em quaisquer das 20 torneiras com cervejas premium de diversas marcas, assim como adquirir as embalagens ou acessórios. No momento, a empresa está ampliando sua participação no mercado através do sistema de fran- quias. Ainda em 2020, deve estrear suas primeiras unidades franqueadas em Caxias do Sul / RS e em São Paulo, dentro de uma rede de restaurantes.

Outra inovação no setor são as embalagens pet descartáveis. A tendência surgiu como maneira de reduzir custos e pela praticidade, já que permitem o transporte seguro por motoboys, evitando quebras e desperdícios, complementa Daniel Janke. A responsabilidade social também se faz presente. Desde que a crise sanitária co- meçou, dezenas de cervejarias já promoveram campanhas de troca de agasalho ou alimentos pela bebida. Além de fazer o bem, a iniciativa aproxima ainda mais as empresas do consumidor final, auxilia as comunidades locais, posiciona as marcas, alinhando-as ao conceito de solidariedade, e ainda evita o desperdício, já que a as microcervejarias não utilizam aditivos como conservantes em suas produções, o que resulta em prazos de validade menores do que as comerciais.

Todas essas ações do cervejeiro independente mostram que ele se antecipou às mudan- ças de desde o início da pandemia. Em recente publicação, a McKinsey & Company — líder mundial em consultoria empresarial — destacou as principais características do consumo pós-Covid-19: sensibilidade ao preço; maior envolvimento digital com migração em massa para o consumo online; maior interesse e consumo por produtos regionais, de higiene e que dêem a sensação de aconchego; e busca por marcas com valores e propósito.

O resultado final dessas ações ainda é imprevisível, pois os rumos que a crise econô- mica irá tomar dependem muito da existência ou não de uma solução definitiva para a crise sanitária, o que só vai acontecer quando surgir uma cura ou uma vacina para o novo coronavírus. Certo é que as cervejarias independentes conhecem muito bem o seu nicho, interagem bem nas redes sociais, criam vínculos e receitas próprias para o seu público, investem em tecnologia, são ousadas na tomada de decisões e ágeis em implementar as mudanças necessárias. Até lá, ainda haverá muita instabilidade, mas ao que tudo indica, em breve haverá brindes aos resultados.

Saúde!

 

Carolina Porto Ruwer
carolina@capitulo1.com.br


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