Quando falar fofinho vira um problema


A melhor forma de aprender a falar é falando. De acordo com o educador Luiz Carlos Cagliari, colaborador voluntário do Departamento de Linguística da UNESP/FCL Araraquara, as crianças aprendem a falar porque convivem com outras pessoas que falam. Mas esse aprendizado depende da racionalidade humana adquirida através da natureza e da interação com outras pessoas. O processo de aquisição da linguagem, para o professor, é altamente complexo.

Em um artigo disponível no acervo digital da UNESP, Cagliari afirma que os sons de uma palavra isolada não passam de sons quaisquer e apenas são aceitos como uma palavra real quando pertencem a um sistema, uma língua. Mas as línguas não são formadas apenas por palavras isoladas: elas são compostas por estruturas que unem ideias e sons, formando palavras, frases, textos, etc. Assim, as crianças começam a aprender ouvindo mais e falando menos, entendendo mais do que falando e somente após uma certa idade é que ocorrerá um equilíbrio entre o que se fala e o que se consegue entender.

A comunicação das crianças tem início desde o nascimento, expressa através do choro, olhar e gestos. Os comportamentos inatos adquirem significado para elas a partir da interpretação dos adultos, permitindo que os reproduzam intencionalmente mais tarde. Um artigo assinado por Prates e Martins, da UFMG, publicado na Revista Médica de Minas Gerais em 2011, assinala que nos primeiros meses de vida a criança realiza vocalizações automáticas como choro, grito e sons primitivos que assumem um papel comunicativo e ainda são fundamentais para o exercício do trato vocal. Por volta dos quatro meses, a criança amplia seu repertório incluindo sons consonantais e, mais tarde, produções silábicas sem que haja uma intenção comunicativa. Será ainda no primeiro ano de vida que ela descobrirá a própria voz e sua capacidade de comunicar, iniciando a produção das primeiras palavras com valor de enunciado e passa a ampliar progressivamente seu vocabulário. De acordo com as fonoaudiólogas Leidi Dayane Bressan e Mariana Johann Ortega a audição é um dos principais sentidos que contribuem para o desenvolvimento da comunicação oral. “Comunicar-se com o bebê desde cedo contribui para a aquisição da linguagem, isso inclui falar, cantar, ler dar sentido à voz e significar tudo o que faz com o bebê. O bebê já começa a escutar dentro do útero materno e é após o nascimento, já nos primeiros meses, que têm início os primeiros balbucios e experimentação dos sons que serão identificados pelos adultos. Ao mesmo tempo também começam a ocorrer imitações do que está ao seu redor como o movimento da boca, piscadas, sorrisos e produção de sons, por isso é importante sempre falar corretamente”, explicam.

Os primeiros anos de vida são determinantes para o desenvolvimento adequado da linguagem. Por isso é imprescindível fornecer possibilidades para que a criança disponha de um ambiente comunicativo e, a partir da interação com a família, crie as bases para um desenvolvimento sadio da linguagem. Esta construção ainda depende de uma série de fatores como o contexto social, familiar e histórico pré, peri e pós-natal do indivíduo, suas experiências, capacidades cognitivas e orgânico-funcionais, como a integridade auditiva.

Ainda de acordo com as fonoaudiólogas as primeiras palavras faladas pela criança ocorrem aproximadamente a partir dos nove meses de vida. Apesar de haver muita variação neste padrão, já que nem todas possuem o mesmo ritmo de desenvolvimento, é importante que os pais e cuidadores fiquem atentos. “Existem crenças de que não há problema caso a criança não fale antes dos três anos, mas não é bem assim. A fala é um importante indicador do desenvolvimento neurológico adequado, portanto, é esperado que a criança tenha capacidade de se comunicar em torno dos dois anos de idade. Caso isso não ocorra, uma intervenção precoce, isto é, antes dos três anos, pode ser indicada pelo pediatra a partir do diagnóstico médico”, esclarecem.

O acesso à fala provém da linguagem oral. É através dela que a criança se familiariza com a estrutura da língua materna e organiza as informações linguísticas necessárias para o desenvolvimento da linguagem oral, tais como o inventário fonético, a articulação dos sons e sua organização de acordo com as regras linguísticas mais simples (como singular e plural, por exemplo). Assim, a criança experimenta diversas formas de falar na tentativa de se aproximar do que ouve os adultos falarem. As trocas de sílabas ou letras, redução de sílabas, harmonias consonantais, simplificações, etc., são normais no processo de desenvolvimento da linguagem oral.

Segundo a literatura médica, a criança já assimilou as principais regras gramaticais e está pronta para se comunicar como um adulto e iniciar o aprendizado formal da linguagem escrita aos cinco anos. Entretanto, para que a alfabetização ocorra, ainda são necessárias outras capacidades adquiridas ao longo do quinto ano de vida da criança (em média), tais como a abstração para compreender o princípio alfabético, etc. Para mais informações sobre alfabetização e linguagem, pode-se recorrer às obras de Luiz Carlos Cagliari.

Alterações no desenvolvimento da fala e linguagem podem acarretar sérios problemas no desenvolvimento cognitivo e socioemocional em crianças em idade escolar ou em adolescentes. Isso porque grupos diferentes apresentam características próprias de uso da língua, que podem ser alvo de zombaria. Entretanto, a variação linguística não mostra erro algum de linguagem, nem para o indivíduo e nem para o grupo, apenas revela que pessoas diferentes podem ter jeitos diferentes de usar uma mesma língua. Infelizmente, esta não é a visão de muitas pessoas e nem mesmo das salas de aula. Segundo Cagliari, a criança entra na escola acreditando que sabe falar sua língua e pode não conseguir entender a razão de tudo, de repente, ficar errado, confuso e difícil em sua mente. A adaptação ao modelo escolar não ocorre da noite para o dia, mas é fruto de um caminho de aprendizagem e aquisição de novas habilidades que não serão aprendidas no mesmo contexto em que ocorreu o aprendizado da fala. . Isso porque falar errado na escola implica, muitas vezes, em ser alvo de piada. Isso pode levar a criança a acreditar que tudo o que aprendeu até então é errado, ou que o seu conhecimento não é válido na escola, ou ainda que a escola não é lugar para pessoas como ela.

Alguns estudos demonstram que a detecção de alterações no desenvolvimento da fala aos dois a três anos reduz em até 30% a necessidade de acompanhamento terapêutico aos oito anos de idade e ainda diminui 33% do número de crianças com problemas na linguagem escrita. Existem sinais que podem ser detectados desde os bebês como a ausência de contato de olhos, não reagir a sons como telefone e campainha, ausência de fala ou fala incompreensível, vocabulário restrito, etc. Para a fonoaudióloga Leidi Dayane Bressan, a indicação do teste da orelhinha também tem contribuído para antecipar a intervenção em bebês que possuem alterações auditivas que, consequentemente, afetarão o desenvolvimento das habilidades de comunicação. Quando o teste da orelhinha não aponta nenhuma disfunção, normalmente é o pediatra o responsável por identificar alterações no desenvolvimento da fala em função da idade da criança. Isso pode acontecer, por vezes, porque a própria família possui dificuldades na fala e demora mais para perceber o problema.

A conversa entre adultos e crianças é determinante para o desenvolvimento da fala e da linguagem, pois será a partir da interação com os mais velhos que a criança tem a oportunidade de errar e ser corrigida, além de praticar e consolidar o conteúdo recém-adquirido. No extremo oposto, verifica-se que a grande exposição da criança à televisão e aparelhos celulares está relacionada a atrasos no desenvolvimento da linguagem na medida em que reduz as oportunidades de interação entre ela e um adulto. “Precisamos levar em consideração que estamos cada vez mais expostos às tecnologias e que o seu uso prolongado impede que os bebês e crianças interajam com outras pessoas e com o ambiente, o que é fundamental para o desenvolvimento da linguagem. De acordo com os estudos da Sociedade Brasileira de Pediatria o indicado é que até os dois anos não haja a manipulação de qualquer aparelho de tecnologia de informática, pois os pais devem incentivar as crianças a brincar, inclusive ao ar livre. Não usar as telas como cuidadoras ou como brinquedos são ótimos pontos de partida para formar crianças com vocabulário mais apurado e maiores habilidades de comunicação”, concluem as fonoaudiólogas.


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