Neurociência e negócios


O cérebro comanda o corpo. Ele regula e controla nossas atividades corporais. É responsável pela nossa consciência, pensamentos, memória e emoções. Ele permite ao homem identificar, perceber, interpretar e compreender o mundo e as pessoas que o rodeiam. Em todas as descobertas relacionadas ao cérebro existe a ciência, ela é responsável por pesquisar e fazer descobertas capazes de grandes revoluções. Se juntarmos cérebro e ciência, temos novas formas de fazer negócio.

Compreenda o seu corpo como uma empresa. Dentro dela existe o gestor (o cérebro) aquele que dá comandos a todas as outras áreas e órgãos do seu corpo os impulsionando a realizar todos os movimentos para o melhor funcionamento da sua empresa (seu corpo). Ele não só controla os movimentos, como também suas emoções, o forçando a analisar todas as situações e buscar melhores resultados. A analogia de cérebros e gestores, lhe abre os olhos para os estudos voltados ao cérebro e a busca da ciência por ferramentas que nos levem a utilizar seu potencial de forma correta, para que o mundo dos negócios torne-se um lugar mais competitivo, mas com o propósito de aprimorar produtos e serviços para obter um resultado engrandecedor ao público final. 

A neurociência tem apresentado novas alternativas para as empresas. Ela permite uma compreensão mais ampla de cada ser humano e de suas capacidades, assim como o desenvolvimento de novas técnicas, tecnologias e ferramentas para aplicar nas empresas. Antes de entrarmos nas técnicas de neurociência aplicada aoos negócios, é preciso compreender as neurociências, suas aplicações e sua relação com o cérebro. 

Em 129 na Grécia o filósofo, astrônomo e matemático Cláudio Galeno estudava anatomia médica e foi o primeiro a supor que o corpo fosse controlado pelo cérebro, assim como apontou que haveria diferença entre nervos sensoriais e motores. Mais tarde Leonardo da Vinci, a partir das descobertas de Galeno, passou a avançar em estudos e descobertas na neuroanatomia. 

Como é possível analisar um cérebro vivo, sem poder encostar nele? Galeno dissecava macacos para entender seu desenvolvimento cerebral, levando em conta que o primata seria um derivado do Homo Sapiens que conhecemos. A forma de estudar evoluiu, mas  com esses estudos podemos compreender o funcionamento do cérebro. Ele é o principal órgão do sistema nervoso, responsável pela regulação e controle de nossas atividades corporais. O cérebro mesmo sendo o gestor de tudo, precisa dividir suas tarefas em setores. O córtex cerebral é o braço direito do chefe, é um importante local de processamento neural, responsável pela parte burocrática de arquivamento e processamento da nossa empresa, ou seja, é o responsável pela memória, atenção, consciência, linguagem, percepção e pensamento. É constituído por massa cinzenta e essa estrutura nos permitiu desenvolver cultura e criatividade.Cada um dos hemisférios possui cinco lobos. O lobo frontal é o planejamento estratégico, associado à atividade motora, articulação da fala, pensamentos e planejamento, sendo responsável por cognição e memória. O lobo pariental é o financeiro, que responde pela interpretação das sensações e orienta o corpo. O lobo occipital é o marketing que interpreta a visão e os lobos temporais são um trabalho conjunto de gestão e equipe de RH porque são onde as emoções e a memória são trabalhadas, proporcionando à pessoa a capacidade de identificar e interpretar objetos ao recuperar informações passadas. Os gânglios basais, tálamo e hipotálamo são os administradores de cada setor e atuam na coordenação de movimentos, organização da transmissão e recepção das informações sensoriais e atividades automáticas do corpo. O tronco cerebral que por sua vez regula as atividades de deglutição e frequência cardíaca e o cerebelo que coordena os movimentos do corpo ao utilizar as informações enviadas pelo cérebro a respeito dos membros, são a equipe de produção e desenvolvimento da empresa. 

Se você acha que a obsessão do homem pelo cérebro ou por criar criaturas para executar tarefas a partir do comportamento humano, seja apenas coisa da literatura, talvez você não conheça os estudos de Alysson Moutri, PhD em genética pela USP, que desenvolveu estruturas tridimensionais a partir de células-tronco, chamadas de minicérebros que foram parar no espaço, para um estudo em parceria com a NASA para entender os efeitos da microgravidade no cérebro e tão pouco deve conhecer a ideia que teve Elon Musk, CEO da Tesla, que anunciou no ano passado o objetivo de uma startup criada por ele em 2017, chamada Neurolink. Essa empresa teria como ideia inserir fios mais finos que um cabelo humano em nossas cabeças, para que possamos controlar computadores e smartphones usando apenas nossos pensamentos. Parece algo muito complexo, além de dar a sensação de que foi pensado para longo prazo, porém a Neurolink levantou  cerca de US$ 150 milhões e está buscando aprovação da agência regulatória de alimentos e medicamentos (FDA), para iniciar testes em humanos já nesse ano. 

A nerociência passou a ser validada e considerada um ponto alto nos estudos sobre o funcionamento cerebral nos anos 90, onde ela saiu dos laboratórios e da base teórica, para ser aplicada de forma prática em outras áreas como marketing, economia, educação, engenharias e recursos humanos. Antes todas essas áreas contavam apenas com a psicologia para entender o ser humano. Após as aplicações  o cérebro passou a ser estudado além da descoberta e entendimento de doenças e distúrbios e passou a ser visto como órgão responsável pelo processamento das informações que produzem o comportamento humano. 

Como a neurociência estuda o sistema nervoso e suas funcionalidades, bem como estruturas, processos de desenvolvimento e alterações que possam surgir e no sentido de compreensão cerebral, corporal e comportamental pode ser dividida em neuropsicologia, neurociência cognitiva, neurociência comportamental, neuroanatomia e neurofisiologia. Ela dá uma visão geral sobre o comportamento humano aplicado a outras ciências, por isso é possível relacioná-la ao universo dos negócios e utilizá-la a favor das organizações. 

A neurociência desmistifica o sentido de outras ciências consideradas inflexíveis e invariáveis, como é o caso da economia. Foi uma surpresa quando em 2002 o psicólogo Daniel Kahneman conquistou o Nobel de Economia, ao apresentar uma nova corrente de pensamento chamada economia comportamental. A economia tradicional se apoia no “homo economicus”, descrito como um ser que toma decisões a partir de um ponto de vista racional, ponderado, centrado no interesse pessoal e com capacidade limitada de processar informações. A economia comportamental mostra uma realidade controversa, onde as pessoas decidem sobre suas finanças baseadas em hábitos, experiências pessoais e regras práticas e que aceitam apenas soluções satisfatórias buscando rapidez no processo de decisão e tem dificuldade para equilibrar interesses a curto e longo prazo e são influenciadas por fatores emocionais e comportamentos de terceiros. 

Levando em conta essa teoria percebemos que nosso cérebro passou a ser estudado com mais frequência e intensidade para entender como ele processa informações que resultam em comportamentos adversos e assim surge uma ferramenta importante para o mundo dos negócios, a neuroeconomia. No ano de 2000 o pesquisador Paul Zark, mostrou resultados ao relacionar países com altas proporções de pessoas confiáveis à prosperidade, nessas nações ocorrem mais transações econômicas e assim mais riqueza é criada e proporcionalmente a pobreza diminui. Nesse estudo ele correlacionou confiança, moralismo e o hormônio da ocitocina. No mundo dos negócios ter essa inteligência em neuroeconomia, pode gerar um faturamento anual maior, quando estabelecida essa relação de confiança e de prazer no cérebro do cliente, que acaba sendo fidelizado, ao sentir-se acolhido e representado dentro da empresa. Além de compreender suas necessidades é preciso estar atento a como as pessoas pensam e se comportam. 

Aliado a neuroeconomia, temos o neuromarketing, utilizado para revelar os processos não conscientes de tomada de decisão do consumidor final. Essa área estuda respostas cerebrais e biométricas dos clientes, assim como o seu comportamento para compreender o que os consumidores pensam, sentem e como agem e dessa forma moldá-los a receptividade com o produto ou marca apresentado. É preciso ficar claro que 95% das informações processadas por nosso cérebro ocorrem de maneira inconsciente e avaliar nossos gostos a partir de 5% de racionalidade é limitante. E é aqui que o neuromarketing entra, ele auxilia na coleta de respostas inconscientes dos consumidores, fazendo com que as empresas elaborem estratégias assertivas ao público-alvo, que já sabe mesmo de forma inconsciente do que gosta ou não.

A figura do chefe é temida dentro das empresas, por questões hierárquicas e por falta de desempenho eficaz relacionado a inteligência emocional, troca de experiências e feedbacks, modelos de gestão inovadores e organização de processos. As pessoas tem a sensação de que o chefe é intocável, por falta de interação ou comunicação e dessa forma não o veem como mentor ou líder. Existe um campo nesse estudo que se chama neuroliderança, que trabalha com cinco pilares básicos: gestão de emoções, de informações, de pessoas, de tempo e de mudanças e como o líder age e reage a cada uma delas. É importante analisarmos que um líder com o emocional desequilibrado ou que se deixa levar completamente pelas emoções alheias ou por situações adversas, permitindo que as emoções tomem controle sobre suas decisões, não consegue prosperar. As decisões devem ser tomadas em prol de melhorias para a empresa, colaboradores e clientes. Trabalhar com todas as informações que possui faz com que se abra um leque de oportunidades, não desperdiçando tempo e aproveitando o potencial de toda a equipe. É importante estar aberto a mudanças, principalmente as que dizem respeito a inovação.

As vendas são o processo de maior interação com o cliente. Para isso é preciso utilizar-se do sistema de neurovendas para diferenciar-se e ser destaque no mercado competitivo. A decisão de compra está ligada a questões emocionais. As sensações e experiências que tivemos sobre cada produto, marca ou empresa nos leva a tomadas de decisão com relação a elas. Para compreender essa decisão de compra é preciso acessar o emocional do cliente, mais precisamente o hipotálamo onde está instaurada nossa estrutura emocional composta por  percepção, memória e interação social.

Passamos para o topo da cadeia alimentar, não por nossa força ouhabilidade, mas por nossa inteligência e a forma como aprendemos a viver em comunidade e nos utilizamos da inteligência colaborativa, raciocínio abstrato e adaptabilidade a espaços, ao tempo e situações. Por isso a neurociência nos lembra, que não somos capazes de solucionar grandes problemas se vivermos isoladamente, é dividindo nossa inteligência, colaborando com os demais, compartilhando experiências e aprendizados e praticando a empatia que as novas gerações conseguem aprimorar o que foi feito no passado, descobrindo tecnologias e técnicas que facilitem o dia a dia das pessoas. O cérebro é ligado a nossa criatividade, que pode ser considerada a mãe da inovação e isso é de grande valia dentro das empresas. É preciso potencializar esse pensamento inovador e utilizar as neurociências como aliadas para o desenvolvimento de organizações preparadas para o futuro. Organizações que compreendam o ser humano de forma geral, não apenas como um comprador ou colaborador, mas indo a fundo na sua essência aproveitando todo seu potencial e oferecendo soluções quase personalizadas para cada tipo de pessoa, valorizando sua individualidade e emoções. 


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