Passos para a felicidade - Sr. Luiz Bocca


O rádio sintonizado em uma energia local, tocando uma música do momento nos fez sentir em casa. O cheiro do couro nos invadiu e permitiu que fizéssemos uma viagem no tempo. Faça chuva ou faça sol, ele estava lá. Chega as sete e meia e sai as dezoito horas. Realiza um trabalho de artista. Seus olhos contam histórias. Bem humorado no auge de seus 86 anos, o Sr. Luiz Bocca nos deu uma aula sobre seriedade, trabalho, boa índole e amor. Sua trajetória como sapateiro começou antes de pisar em terras videirenses, mas aqui o seu trabalho se consolidou. Sapateiro a 62 anos, confidenciou-nos sobre sua vida e sua jornada. E que jornada!

 

Existem poucos lugares nesse mudo onde todos nós fomos capazes de nos sentir em casa. Dentro de uma pequena sala na Rua XV de Novembro no centro de Videira, isso é possível. A música ecoa no rádio aos fundos da loja, a movimentação de carros e pessoas ressoa durante o dia todo e a máquina de costura trabalha em ritmo acelerado. A luz que da vida à pequena sala não provém do sol que erradia forte lá fora. A luz que preenche nossos olhos vazios vem de um senhor cujo os olhos sorriem abertamente paras as pessoas e para a vida.

O amor pela sapataria cresceu dentro da família Bocca. O ensinamento e o amor pelo trabalho de artista passou de irmão para irmão. Aprendeu a profissão com seu irmão Marcelinho (com 88 anos e ainda sapateiro) e assim o trabalho preciso e detalhista virou profissão e o responsável pelo sustento da família.

O amor pela profissão e por lugares, nunca superou o amor pela família e a busca pelo seu bem-esta. No ano de 1956 já casado e com filhos, o Sr. Luiz decidiu sair da sua cidade natal no Rio Grande do Sul para que a esposa pudesse ficar perto dos pais em terras videirenses. Ele estabeleceu o período de um ano para ficar em terras catarinenses. Por força do destino, acaso ou um amor que nasceu dentro do peito pela terrinha, esse um ano viraram 62 anos muito bem aproveitados.

Vindo de uma família de 11 irmãos e aprendendo a profissão com um deles. Explicou minuciosamente como o trabalho é realizado, desde a produção da peça que gruda o salto ao restante do sapato, como o formato, tamanho e forma de entalhe. Os tempos mudaram, ele viu grandes evoluções na indústria e fala impressionado de como as peças e as máquinas para fabricação de sapatos evoluíram.

Para ele todos os trabalhos que realiza são importantes, seja colocar um botão novamente em uma calça, arrumar a alça de uma bolsa, o zíper de uma mala ou confeccionar um sapato do zero.

Cada detalhe importa, pois faz diferença para a pessoa que solicitou o serviço. Dentre a conversa sobre profissão e trabalho ele nos deu um valioso conselho: “Se não houver amor pela profissão, não adianta trabalhar naquilo. Se você estiver fazendo algo contra a sua vontade, não faça. ”

Em 62 anos como sapateiro em Videira, tem como grande companheira a máquina de costura. A mesma em todos esses anos. Já enfrentou mudanças, já ficou debaixo d’água na enchente de 1983 e precisou de alguma peças novas, mas continua ali resistente e pronta para auxiliar em todo o tipo de trabalho a ser realizado, dos pequenos concertos aos resistentes calçados.

Junto da consolidação da carreira como sapateiro, criou raízes. Criou uma família composta por cinco filhos, nove netos e quatro bisnetos, conta com alegria que todos moram perto e que suas noras e genros são como filhos, não existe distinção. Seus olhos brilharam quando disse não possuir um inimigo e que sua loja vive cheia de amigos, que passam para fazer breves visitas todos os dias, lhe fazendo assim companhia e compartilhando boas histórias.

Aos 86 anos, diz com alegria que não pretende parar de trabalhar, mesmo que seus filhos tivessem pedido para que ficasse em casa para descansar. O trabalho tem mantido sua mente sã e tem feito o tempo passar. O contato com as pessoas tem feito com que ele continuasse costurando por entre as adversidades da idade.

Possui uma saúde invejável. Mesmo tendo que fazer alguns procedimentos cirúrgicos ao longo da vida não deixou de trabalhar, fazendo algo pelos outros e se mantendo ativo.

Entre todas as histórias que coleciona ao longo desses 62 anos, nos contou que a que mais o marcou foi fazer um sapato número 48 a um rapaz que não encontrava a numeração em lugar algum e que por ser muito grande não conseguia encontra cintos, os cintos de 1,95 são confeccionados até hoje para esse cliente em especial.

Disse-nos que nunca teve momentos de tristeza, que sempre foi uma pessoa muito alegre. O único momento triste, foi quando sua esposa faleceu. Com os olhos marejados como se toda história passasse diante de seus olhos e o coração apontado para o céu, timidamente disse: “Fazem 27 meses, conto até os dias”, a saudade bateu no peito dele e nos mostrou que grandes amores não morrem nem mesmo com as adversidades do destino.

Sr. Luiz é o tipo de pessoa que nos inspira. A conversa é capaz de fluir por horas e horas, os conselhos são valiosos. Com ele sorrir para a vida e amar a profissão se tornam coisas simples e leves. Com um sorriso no rosto, mesmo que não nos diga, temos a certeza de que ele sabe que deixará um legado importante a cidade de Videira, pela simplicidade, bom humor, boa índole e muito, mas muito trabalho!

 

Larissa Lucian


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