Hobby ou trabalho


Transformar o seu lazer em profissão é um caminho prazeroso, mas cheio de armadilhas. Reconhecer essas dificuldades é o primeiro passo para tomar decisões conscientes

O que eu gosto tanto de fazer que poderia fazer a vida toda? Essa pergunta acompanha milhares de jovens, especialmente quando a época das inscrições dos vestibulares se aproxima. Normalmente, ela aparece em um período de dúvidas e escolhas: dar um passo além no ensino formal ou começar uma carreira fora do meio acadêmico; ir para a faculdade ou para o mercado de trabalho ou conciliar as duas coisas; buscar uma profissão que dê dinheiro e realização ou apenas dinheiro ou apenas realização. Escolher nunca é fácil.

Mas a pergunta com que abrimos esta matéria, embora comum, é falha. Ela pressupõe que a escolha do jovem sobre sua carreira acontecerá somente uma vez na vida, partindo da ideia de que entrará na universidade antes dos 20 anos, se formará no máximo aos 25 e conseguirá ser feliz e realizado aos 30 para formar uma família, se dedicar aos filhos pelas próximas décadas e curtir os netos e a aposentadoria depois dos 60. A pergunta inicial ignora o fato de que existe tempo para descobrir prazeres ao longo da vida, pois parte do pressuposto de que os gostos e alegrias que temos em um determinado momento não se alteram ao longo da vida, o que permite descobrir algo que seja tão legal a ponto de se passar a vida inteira fazendo.

"Todas as pessoas trazem desejos, experiências e necessidades dentro de si. A dinâmica diária, os trabalhos e grupos que frequentamos fazem com que a ordem destas três palavras se alterne constantemente", explica Lúcio Stein, sócio da Transcend - Arquitetura de gestão, desenvolvimento humano e organizacional, hobbu x trabalho lucio  "por isso, as nossas respostas e reações cotidianas estão diretamente relacionadas à sequência com que estas palavras estão dispostas em nossa mente no momento de decisão, afinal, elas controlam nossas emoções".  Com mais de 20 anos de experiência com consultoria, cursos e palestras, Lúcio afirma que nenhuma certeza pode ser construída em um momento de insegurança. Dar tempo ao tempo pode ser crucial. 

Leituras, cursos, viagens, pesquisas e até o próprio silêncio são essenciais para entender nossas motivações, necessidades, experiências e desejos antes de tomar qualquer decisão. Lúcio afirma que muitas pessoas gostariam de transformar o seu hobby na sua atividade remunerada principal, mas não se sentem seguras para isso.

"É mais comum do que se imagina, especialmente se isto significa abrir mão do emprego formal e empreender. Uma alternativa para quem está nesse impasse é procurar por empregos, estágios ou trabalhos voluntários que estejam relacionados aos seus gostos principais enquanto ainda não se sentir preparado com todas as informações ou experiências necessárias para tomar a decisão de forma consciente", explica.

Em contrapartida, abrir mão dessa alternativa e manter o hobby apenas como é (uma forma de relaxar) não significa ser covarde ou não ter coragem o suficiente para enfrentar os desafios.

"Muitas pessoas bem-sucedidas investem muito tempo em seus hobbies, não apenas como uma forma de lazer, mas como estratégia para gerar mais conexões e networking. Eles entendem que o hobby ajuda a desenvolver novas habilidades e talentos, pois fazer o que gosta melhora o foco, a criatividade, a disciplina e a organização. Há casos em que é até mais fácil para o RH auxiliar o colaborador a direcionar sua carreira dentro da empresa ao levar seu hobby em consideração", salienta Lúcio.

Fazer amigos e criar novos laços

Os hobbies foram usados como forma de amenizar o estresse e a pressão da profissão pelo médico oftalmologista Cláudio Yatsuyuki Nakano, que de quebra aproveitou o momento para fazer novos amigos e conviver com pessoas de fora do seu círculo profissional. "Quando era mais jovem, um dos meus hobbies foi o tiro. Percebi que as espoletas que caíam na natureza depois que atirávamos adquiriam tonalidades diferentes depois que o projétil disparava. O tom vai variar em função de vários fatores, como o tipo de composto químico utilizado para dar início à explosão, etc. E eu comecei a achar que aquele material que seria descartado com cores tão bonitas poderiam ter outros usos", explica. Assim, Nakano passou a fazer experimentos e criar imagens usando as espoletas detonadas. hobbu x trabalho nakano

Temas com inspiração oriental e cenas do cotidiano passaram a povoar os quadros criados pelo médico em seu tempo livre. Um hobby fomentado, inclusive, por amigos que passaram a guardar as espoletas para lhe fornecer material. Entretanto, a ideia de se dedicar apenas à arte nunca esteve em seus pensamentos. "Minha profissão é outra. Já tive um ateliê anexo ao consultório, onde trabalhava nos quadros nos poucos intervalos entre as consultas, mas não vejo como esse prazer poderia se tornar uma atividade principal, especialmente porque o uso de espoletas se tornou inviável com a industrialização", destaca. Atualmente, os quadros de Nakano estão espalhados em diversos clubes de tiro ao redor do país e em seu consultório.

Transformar arte em renda fixa

Há seis anos, Joseane de Andrade decidiu mudar de vida e se tornar uma tatuadora. "Sempre soube que trabalharia em algo relacionado à arte e sentia que seria reconhecida através do meu trabalho. Busquei uma área para atuar que me trouxesse essa realização", explica Joseane. Desde os 18 anos, a artista ministrava cursos de pintura em tela, fazia pintura facial em festas infantis, pintava paredes em escolas, Centros de Educação Infantil, hospitais e residências em Videira e região, em busca daquele tipo de expressão artística que mudaria sua vida. "Eu tentava me encontrar profissionalmente. Ganhava um pouco de dinheiro aqui e ali, mas ainda não me sentia completamente segura para trabalhar apenas com arte. Então dividia meu tempo entre outras profissões e atuava com pintura à noite e finais de semana", conta.

O momento da virada chegou em um curso de formação de terapeutas em que Joseane levou um caderno com um desenho autoral na capa. "Meus colegas de curso me perguntaram se eu já tinha pensado em ser tatuadora. Confesso que nunca tinha me interessado antes, mas percebi que aquele era o momento de tentar", lembra. hobbu x trabalho joseane

Atualmente com o estúdio Frida Tattoo, Joseane sentiu na pele o peso do desequilíbrio entre a paixão pela arte no trabalho e a paixão pela arte no tempo livre. "No início me dediquei quase em tempo integral à tatuagem, gerando um desgaste físico e mental muito grande. Aos poucos aprendi que precisava equilibrar meu tempo entre o que seria trabalho e o que seria meu hobby. Entendi que precisava me desligar enquanto não estava tatuando para me dedicar a outras áreas da minha vida. Hoje me considero tatuadora enquanto estou no estúdio e artista em tempo integral", explica. E se antes de ser tatuadora, Joseane fazia muitos trabalhos de pintura em parede, tela, madeira e artesanatos em E.V.A (e o que mais envolvesse arte e trabalhos manuais), atualmente mantém como hobby a pintura com tintas.

Diante do desafio para manter o estúdio e tornar o trabalho rentável, Joseane não dispensou a ajuda da família.

"Bem no começo meu filho mais velho me ajudou no estúdio mas logo seguiu seu caminho profissional, em seguida meu marido saiu da empresa em que atuava para me ajudar com o estúdio. Há 4 anos estamos trabalhando juntos e foi muito importante ter ele ao meu lado para que chegássemos aonde estamos, enquanto ele faz toda a parte burocrática e financeira do estúdio, consigo me dedicar mais na parte artística e nos estudos relacionados à tatuagem. Aos poucos fomos nos conhecendo profissionalmente, hoje entendo como ele trabalha e ele entende como meu lado artístico funciona e temos a consciência de que precisamos um do outro para que o negócio dê certo. O importante é também saber separar o momento de falarmos sobre trabalho e o nosso tempo livre e em família, que é o meu alicerce. Ter o apoio deles é fundamental e logo minha filha fará parte da nossa equipe", conta Joseane.

E se você está com aquela dúvida que falamos no início da matéria, se questionando se conseguirá profissionalizar seu hobby, Joseane orienta que não permita que os outros desvalorizem seu trabalho e separe um tempo para si mesmo.

"Geralmente as pessoas pensam que porque amamos o que fazemos, o dinheiro não importa, que de alguma forma o fato de fazer o trabalho já compensa. Não é assim que funciona. Essa valorização deve começar por você, para que seus clientes entendam que estão pagando por algo muito especial, feito com amor, mas que exige tempo, estudo, dedicação e dinheiro. Também é importante organizar e separar um tempo para você, para sua família, sua espiritualidade, estudos e para descobrir novos hobbies que compensem sua dedicação e recompensem seu tempo como um presente para você mesmo", pontua.

Fazer do custo do trabalho um valor compartilhado

Empreender nem sempre é uma escolha. Buscar a sobrevivência diante da redução da oferta de trabalho formal vista nos últimos anos, especialmente depois da reforma trabalhista, é um caso de necessidade. E quando se faz alguma coisa para ganhar dinheiro ou se passa fome, focar naquilo que se sabe fazer e faz bem é a melhor alternativa.

"Com a transformação do mercado e da cultura, especialmente frente à pandemia, muitas pessoas foram estimuladas a perceber melhor o seu comportamento, buscar alternativas para ocupar o tempo, se reinventar para gerar renda e observar com mais critérios o seu estilo de vida, algo que não conseguiam fazer antes com a correria da jornada de trabalho. Isso fez muitas pessoas transformarem seus hobbies em fonte de renda", aponta Lúcio.

Segundo o consultor, muitas pessoas entenderam que o que realmente agrega valor à sua permanência no mercado não é a comodidade de um emprego formal, mas a qualidade de entrega do seu trabalho. 

"Esta é a grande virada de chave para descobrir a veia empreendedora do sujeito. Se antes ele se sentia um mero coadjuvante nas atividades cotidianas da empresa de outra pessoa, agora enxerga a possibilidade de ser o protagonista do novo capítulo da sua vida e dono do seu próprio negócio", esclarece. E ao entender que deve entregar o seu melhor, a decisão mais acertada é oferecer aquilo que sabe fazer de melhor, o que está intrinsecamente ligado àquilo que realmente gosta de fazer ou que fazia apenas como um hobby não monetizado. "Muitas vezes, a pessoa não percebia a ótima fonte de renda que tinha em suas mãos. Depois disso é só colocar os pés no chão", provoca Lúcio.

hobby x trabalho capaEU QUERO FAZER ISSO! MAS COMO?

De acordo com Lúcio, a forma mais clara para ter sucesso na transição do hobby para um trabalho rentável exige seguir três passos.

#1 supere seus limites

Você já ouviu falar em crenças limitantes? Este será o primeiro e mais difícil dos obstáculos para superar. "Superá-las vai exigir ressignificar algumas certezas infundidas em nossa cultura desde a infância, tais como: 'tem que trabalhar no emprego que conseguir', 'o importante é ter estabilidade', 'não importa se você gosta ou não se te pagarem bem pra isso', 'trabalhar no que gosta é privilégio de poucos'. Se o que você faz como hobby para ajudar ou presentear as pessoas consegue deixá-las muito felizes e satisfeitas, já é uma prova de que o sucesso está próximo e o que falta é otimizar o processo de produção e monetizar o resultado. É a hora de aprender a cobrar pelo seu esforço e investimento", esclarece.

Para conseguir agir com mais assertividade, a segunda fase é extremamente importante.

#2 defina o foco

Definir o foco de atuação está muito mais relacionado ao perfil pessoal do que o foco do produto. Muitas pessoas são conhecidas por serem excelentes profissionais, mas acabam quebrando ao montar suas empresas por não controlar corretamente as finanças, registros e processos administrativos. "Isto acontece porque muitos não se dão conta de que o bônus para fazer aquilo que gosta pelo resto da vida traz consigo a responsabilidade de manter o controle dos negócios sempre em dia. Precisamos ter claro que um empreendedor sem capacidade de organizar suas ideias é mais um potencial sonhador frustrado", diz Lúcio.

Quem consegue se dar bem nesse mercado de empreendedorismo adquire uma visão estratégica do negócio e usa ferramentas administrativas simples e claras para viabilizar as atividades rentáveis do negócio. De acordo com Lucio, normalmente eles desenvolvem três níveis de competências para gestão do negócio: a competência operacional (o eu técnico), ligada à fabricação do produto ou serviço entregue ao cliente; a competência tática (o eu administrador), relacionada à gestão de processos e dos números; e a competência estratégica (o eu empreendedor), que se mantém firme na missão e busca inovações frente a sua visão de futuro.

#3 crie planos de ação

Depois de vencer as crenças limitantes e de entender que precisa ter foco para administrar o negócio, pode-se ter mais segurança dos passos seguintes. Com mais segurança, pode-se dizer adeus ao medo e dar boas-vindas à criatividade. Uma pessoa mais criativa está mais aberta a adquirir novos conhecimentos sobre gestão, definir sua visão de futuro, ouvir o mercado e planejar estratégias. Por isso, o terceiro passo dessa escalada para o sucesso fazendo o que você ama é criar planos e ação através de processos ou ferramentas estratégicas.

Lúcio aponta que existem inúmeras ferramentas que podem ajudar nesse passo e "a grande maioria delas está disponível na internet. Pode-se usar ferramentas estratégicas como Análise SWOT, SMART, PDCA, Canvas, 5W2H e muitas outras. Entre os processos, a Arquitetura de Gestão pode ajudar a alinhar as estratégias e ter uma visão ampla das possibilidades futuras. O mais importante é agir de forma organizada, com um cronograma detalhado do que fazer, responsáveis e prazos definidos. E se não souber onde começar, sempre se pode procurar apoio especializado". 

Embora muitas vezes a opção por tornar seu hobby em um trabalho ocorra diante de uma necessidade, escolher transformar o custo do seu trabalho em valor é uma ação pessoal e intransferível.

No fim do expediente, o que vale mesmo é ser feliz e amar aquilo que se tem.

 

 


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