OBRIGADO! Agradecer aos profissionais da linha de frente é importante, mas fazer a nossa parte também


Fique em casa

Foi assim que tudo começou para muitos de nós. Não falta muito para que a campanha pelo distanciamento social faça aniversário no Brasil. Vai fazer um ano, mas parece que se passou uma década inteira desde que fechamos a porta de casa e começamos a abrir, lentamente, progressivamente para voltar a sair. 

O que diria Mario Quintana ao ver que seguimos, mesmo que de maneira torta, o seu conselho de que "A gente sempre deve sair à rua como quem foge de casa"? Nunca saberemos, mas durante algum tempo tivemos a impressão de que infringíamos as regras ao cruzar a soleira da porta ou o portão de entrada. E contrariar as normas, nesse caso apresenta um risco muito grande: ficar doente e transmitir aos demais. 

A orientação para não sair foi dada desde o início, mas houve quem não pudesse segui-la. Os profissionais da saúde não conseguiram ficar em casa, pois se ficarem não há mais saúde para ninguém. A recomendação não se aplica especialmente para as equipes de assistência à saúde que atuam no cuidado direto de pacientes com suspeita ou diagnóstico confirmado de Covid-19, nas unidades básicas de saúde, unidades de pronto atendimento e hospitais. Eles são grupo de risco, expostos diretamente aos pacientes infectados e recebendo uma alta carga viral diariamente, e muitas vezes são submetidos a condições de trabalho extenuantes.

Falar em "profissionais da saúde" é usar uma denominação bastante ampla. Nela, estão abrigados os médicos, nutricionistas, biólogos, enfermeiros, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, cirurgiões-dentistas, terapeutas ocupacionais, psicólogos, farmacêuticos, técnicos em radiologia, técnicos em enfermagem, entre tantos outros cuja profissão se relaciona às ciências da saúde. Mas o risco de exposição às doenças a exemplo da Covid-19 não se resume apenas a eles. Também vivem esse perigo os profissionais que trabalham em unidades de saúde em outros setores como limpeza, lavanderia, copa, cozinha, etc. E a contaminação, quando ocorre, traz consequências diferenciadas de acordo com cada realidade. Agora, caminhando para o aniversário de 1 ano da pandemia, seus efeitos se tornam cada vez mais evidentes.

sintomas

Cansaço físico e estresse psicológico são apenas a ponta desse iceberg. Com poucas informações a respeito do vírus, até pouco tempo não se sabia ao certo quais medidas de proteção são mais ou menos eficazes e quais protocolos adotar. A elaboração de normas contou com estudos profundos e revisões sistemáticas da literatura existente sobre a doença, mas se tratando de um vírus novo, até mesmo a literatura técnica ainda estava escassa. Ainda assim, conforme a eficácia de algum equipamento ou medicamento foi comprovada ou especulada, assistimos ao seu escoamento das prateleiras de vendas como uma grande torneira aberta. Não é segredo algum que os hospitais e unidades de saúde tiveram que agir na contramão da escassez para garantir a proteção dos seus trabalhadores, adquirindo-os muitas vezes com preços abusivos.

E então você está prestes a sair de casa para enfrentar a pandemia, tratando pacientes infectados, torcendo para que as suas condições de trabalho ainda sejam sustentáveis e seguras para que não traga um vírus de carona assim que voltar pra casa. Nós podemos não saber como é viver com esse nível de estresse, mas podemos ter empatia para entendê-los. Na tentativa de entender e agradecer por esse trabalho, que ainda se estenderá por um bom tempo, buscamos conversar com profissionais da saúde de alguns dos hospitais da região Meio-Oeste que atendem casos de Covid-19 para ver o que eles têm a nos dizer.

O principal risco que afeta os profissionais envolvidos no cuidado com pacientes com Covid-19 é a contaminação pela doença. Um estudo publicado em 2020 associou o aumento da jornada de trabalho, a inadequada higienização das mãos e o risco de contrair a doença a partir da análise de 72 profissionais que atuaram na linha de frente na China. Outros trabalhos apontaram uma porcentagem maior de profissionais infectados enquanto atuavam em enfermarias clínicas em um hospital em Wuhan, sendo que a maioria apresentou o tipo grave da doença mesmo estando fora do grupo de risco por fatores como idade ou presença de comorbidades. Em hospitais regionais da China, verificou-se que não é incomum que os enfermeiros se descuidem enquanto cuidam dos pacientes e parte desse descuido provém do estresse e da exaustão, fruto das longas jornadas de trabalho.

A contaminação não é uma prerrogativa para que o coronavírus pare de circular. Casos de reinfecção mostram, na prática, que mesmo que todas as pessoas do planeta sejam contaminadas, os anticorpos criados pelo corpo não duram tempo o suficiente para repelir uma nova exposição meses mais tarde. O vírus vai parar de andar quando nós bloquearmos sua passagem.  Segundo o médico infectologista Bruno Vitiritti, do Hospital Salvatoriano Divino Salvador, de Videira (SC), desde os primeiros casos da região podemos perceber vários períodos epidemiológicos, isso significa que mesmo que a doença não tenha diminuído na região, houve variações na forma como a sociedade se cuidou.

"Durante um período, a comunidade usou mais a máscara, se cuidou mais, houve mais reclusão social, depois houve um afrouxamento total por parte da população e das entidades com relação ao isolamento, o que gerou um aumento do número de casos, principalmente com maior exposição da população idosa, que é boa parte da população da região Oeste. Uma colega pediatra, por sua vez, tem relatado que voltou a ver doenças virais comuns da infância, que não apareciam mais por conta do isolamento. Elas voltaram a apresentar essas doenças de rotina geradas pelo contato. Esse é um indício que estamos afrouxando as medidas e que a população já não está se cuidando como deveria", salienta Dr. Bruno.

O infectologista foi um dos profissionais da instituição que entrou em quadro de estafa mental no final de 2020. Sintomas como cansaço excessivo, apatia, sensação de medo e desesperança são característicos do quadro. Em junho, uma pesquisa realizada pela USP apontou  que 38% dos profissionais de saúde da linha de frente do combate ao coronavírus apresentavam esse tipo de sobrecarga. Já o estudo por amostragem realizado pela healthtech PEBMED divulgado em setembro indicou que 78% dos profissionais da saúde tiveram sinais de síndrome de burnout durante a pandemia. Dr. Bruno conta que estava muito cansado, se sentindo impotente diante da população, que não compreende o papel da corresponsabilidade do cuidado.

"Temos a cultura de que o serviço de saúde é obrigado a prestar atendimento. Isso não é ruim, mas tira a responsabilidade que o indivíduo tem de cuidar da sua saúde. Então ele só te procura quando o quadro se agravou muito e transfere ao profissional a necessidade de salvá-lo. Vivemos secando gelo! Há quem pense que deve se habituar à dor, pois trabalhou muito no serviço pesado. Se tiver essa mentalidade, mas mesmo assim se cuidar, tudo bem! O problema é não se cuidar, não controlar as doenças de base como a hipertensão, o diabetes, a obesidade. Quem já tratava essas doenças mal antes, se torna uma bomba relógio quando pega Covid"Dr. Bruno.

Há poucos quilômetros de distância, em Joaçaba, a situação do HUST não é muito diferente. De acordo com o Diretor Geral, Alciomar Antônio Marin, o hospital investe em capacitações continuadas para todos os colaboradores, seja da ala Covid ou não, para atender esses pacientes e preservar a segurança de todos.

"O trabalho de capacitação é realizado em conjunto com o RH, o SESMT e outras áreas, e acontece até hoje. Além disso, buscamos parcerias com o Governo do Estado, programas com o Hospital Sírio-Libanês e Albert Einstein para fornecer auxílio e suporte psicológico aos trabalhadores, e campanhas internas para trabalhar as questões emocionais e amenizar o impacto da pandemia", destaca Alciomar Antônio Marin.

Na mesma instituição, o médico e diretor técnico Julio Cesar Egger indica que houve uma insegurança muito grande no começo.

"Era uma doença nova, sem perspectiva, todo um novo desafio que a abertura desses novos meios de atendimento nos trouxeram. Tínhamos medo, incerteza sobre a evolução dos pacientes e progressivamente fomos nos habituando à nova rotina, vendo que é um desafio que conseguimos enfrentar e reverter em muitos casos. É evidente que isso mexe com o emocional de toda equipe, mas com a chegada da vacina podemos ter uma espécie de tranquilidade", explica Dr. Julio.

Mesmo com vários casos de infecção ocorridos dentro da instituição, não há registro de perdas de trabalhadores para a doença.

Com as portas abertas para diversos atendimentos à comunidade, ambas instituições seguem contratando profissionais para atender a demanda. Para a enfermeira Daivana L. Kunz, do HSDS, houve um deslocamento dos profissionais de diversas áreas para atender os casos de Covid.

"Criamos novas equipes de atendimento para o gripário, para a enfermaria, para a UTI e para as equipes de apoio. Isso era muito necessário, pois como atendemos vários municípios da região não podíamos simplesmente parar de atender outros tipos de doenças, ou casos de urgência e emergência. Tivemos que nos reinventar e aprender a conviver com o medo que paira sobre nós com qualquer dor de cabeça ou de garganta", explica Daivana L. Kunz.

Já o HUST,  que é porta aberta para mais de 55 municípios em função da característica de referência em alta complexidade em neurocirurgia e oncologia, deslocou aproximadamente 110 profissionais para a ala Covid.

Com estruturas bem similares, as duas instituições mantém as taxas de ocupação elevadas e o cuidado ainda maior com toda a equipe. De modo geral, pode-se dizer que os percentuais de infecção dos profissionais foi baixo nos dois casos. Enquanto o HSDS apresenta menos de 20% do quadro de colaboradores que já foi infectado, o HUST apresenta uma variação de apenas 2%, atingindo 22% de infectados. De acordo com Dr. Bruno, ocorreram pouquíssimas infecções dentro das unidades de saúde, logo, ainda não se pode falar em imunidade de rebanho, que teoricamente exigiria uma contaminação de aproximadamente 30% do quadro para ocorrer.

"Mas ainda temos que pensar na reinfecção. Os profissionais de saúde estão desgastados de tanto falar sobre isso, mas a reinfecção existe e ainda não sabemos como ela se comporta. Ficamos muito agoniados porque já não sabemos como conscientizar a população para que se comporte de maneira adequada e perceba que, mesmo quem já pegou a Covid e quem já foi vacinado, ainda deve usar máscara. Creio que ainda vamos usá-la por até cinco anos ainda, é impensável acreditar que vamos nos livrar dela antes dos próximos dois anos", explica o infectologista Dr. Bruno.

Ele ainda aponta que a imunização ainda precisa de estudos para atestar sua efetividade, mesmo havendo uma vacina. Para o médico, ainda que a vacina seja aplicada não saberemos com certeza se a pessoa está imune de fato. O mesmo vale para quem já foi contaminado.

"A presença de anticorpos não quer dizer nada! Quando falamos de Influenza também tentamos fazer um teste de anticorpos na época e descobrimos que o exame sorológico para doenças virais não é 100% efeito. Isso se tornou um hábito não muito correto com relação à Covid. O buraco, nesse caso, é bem mais embaixo", diz Bruno.

 

Como você pode agradecer?

Fazer a sua parte é a melhor maneira de agradecer ao esforço dessas equipes. Essa ideia começa com a continuidade dos tratamentos para as doenças já existentes (como diabetes, hipertensão, obesidade, síndromes do pânico, ansiedade, etc.) e evitando a exposição ao risco. Questionados individualmente, cada profissional que colaborou com esse conteúdo apontou questões importantes para o que nos aguarda em 2021 e a maioria delas passa pela colaboração.

Dr. Bruno considera que ainda vamos levar umas três ou quatro pandemias para mudar nossa postura cultural perante o coletivo.

"Esse é um problema da pós-modernidade: esquecemos do futuro e queremos viver o hoje. Nossa cultura dá mais valor a viver o momento, um egoísmo que nos impede de receber um não para prazeres imediatos e de desenvolver a empatia pelos demais. Precisamos encontrar formas de trabalhar esse egoísmo e pensar na coletividade para proteger a todos e dividir a responsabilidade", pontua Bruno.

Para Daivana, a situação é angustiante.

"A gente sabe que se o profissional usaro o EPI corretamente e seguir as normas corretamente, a probabilidade de infecção é mínima, mas vivemos nessa angústia. Nós convivemos com o pior da Covid, acompanhamos casos graves, outros que vão para a UTI, outros que vão a óbito e é muito difícil enquanto sociedade ver que estamos aqui atendendo um paciente que não consegue ir ao banheiro, tomar água ou se alimentar como gostaria e uma parte da população ainda se aglomera em festas clandestinas, na praia, etc. Com a maior exposição, o medo que sentimos de transmitir aos outros é ainda maior. Nossa esperança se direciona para a vacina e sua capacidade de reduzir casos graves", explica Daivana.

De acordo com Marin, a imunização através da vacinação vai dar uma perspectiva diferente, porém, ainda teremos todos os cuidados.

"Não é porque a população será imunizada que tudo voltará a ser como antes, mas nossa esperança e nosso otimismo com certeza passam pela vacina", aponta Marin.

Já Dr. Julio acredita que algum nível de normalidade precisa ser retomado, mesmo que com alguma rotina diferente.

"O retorno seguro é a grande questão. Conseguir manter o distanciamento dentro de uma nova rotina é o caminho para que a sociedade não entre em colapso. De qualquer forma, a prioridade é a vacinação. A maior segurança seria aguardar a imunização para falar em retorno com tranquilidade, pois enquanto não estivermos imunizados vai haver riscos e devemos ter precauções. Mesmo assim, dependeremos do perfil imunológico da população e provavelmente veremos essa vacina entrar no calendário vacinal para aplicação anual", salienta Dr. Julio.

Por fim, o que resta a nós, que não somos da área da saúde, é agradecer às equipes. E o melhor jeito de fazer isso é fazer a nossa parte para que a situação não piore.

 

profissionais da saude

 


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